Palavras sem poesia carecem de paixão; palavras sem paixão carecem de persuasão; palavras sem persuasão carecem de poder. Quando a linguagem do deveria ou do teria que predomina, a palavra pregada e escrita se transforma em terra seca, vazia de paixão, persuasão e poder. No encerramento de muitos sermões, a exortação, “agora façamos…” não carrega convicção nem poder. Sem o compartilhar da experiência pessoal, a pregação profética é impossível. A Palavra de Deus deve estar encarnada na vida do pregador.

A solidão é a fornalha da transformação, e acender o fogo interior é a sabedoria do silêncio. Esta sabedoria torna o discurso pessoal; sem ela, o diálogo é impossível. Palavras sobre Jesus que não vêm de dentro são inúteis, enquanto palavras nascidas do silêncio comunicam conhecimento íntimo, afetuoso e amoroso do Senhor Jesus. No profeta Oséias, Deus fala do modo como um jovem apaixonado poderia convencer sua amada a casar-se com ele: “agora vou atraí-la; vou levá-la para o deserto e falar-lhe com carinho” (2.14).

Rejeite o silêncio e a solidão como troféus reservados a monges e freiras enclausurados, e as consequências para o discipulado serão previsíveis. O critério único para admissão no “Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo” (Mateus 25.34) é a confissão de Jesus como Senhor, não o modo como “algum dos meus menores irmãos” foi alimentado, vestido, recepcionado e visitado. E, no entanto, quando a discriminação contra mulheres continua sem ser combatida; quando as minorias são consideradas cidadãos de segunda classe; quando a liderança é perita nos princípios de megaigrejas e não no culto humilde; quando os pobres e os párias não são bem-vindos à mesa; quando a obediência ao Pai, o serviço amoroso pelos outros e a simplicidade de vida são considerados esfera de ação exclusiva da elite dos que creem; quando a grandeza evangélica é medida pela conquista e não pela pequenez; e quando a rejeição e o sofrimento inerentes ao testemunho ousado da verdade são racionalizados, minimizados e finalmente pulverizados em estudos bíblicos impertinentes, então Jesus é transformado em um anacronismo, seus ensinos são transformados em algo irrelevante e seus seguidores transformados em uma multidão anônima – entretanto, seus investimentos permanecem intactos, seus cartões de crédito e suas quinquilharias assegurados; uma manada constrangida, se movendo em passo de marcha com os bajuladores, absorvida em seus próprios interesses, que se mantém ocupada “expandindo seus territórios para a glória de Deus”.

Se conhecêssemos o Novo Testamento de cor, se ouvíssemos seus trovões soando em nossos ouvidos, distinquindo-os dos sons tolos e das sirenes persuasivas do mundo, se soubéssemos de cor ao menos uma sílaba de uma palavra dentro de uma sentença do Sermão do Monte, se déssemos ouvidos à voz da águia de Patmos, se crêssemos que nos deixarmos ser amados por Deus é mais importante que amar a Deus, nunca mais toleraríamos as maquinações de religiosos manipuladores que distorcem a face de Deus. Nunca mais os que caíram seriam humilhados publicamente diante da congregação. Nunca mais pregadores destemperados teriam autorização para aterrorizar pessoas nos bancos das igrejas. Nunca mais nos colocaríamos ao lado de celebridades clericais e nos curvaríamos aos ricos e poderosos. Nunca mais a primazia de amar estaria subordinada a uma suposta ortodoxia. Nunca mais a barra do salto com vara seria rebaixada. Nunca mais nenhuma igreja ousaria fazar mal a outra, e nunca mais a voz profética de um Martim Luther King Jr. ou de um Daniel Berrigan seria silenciada.

Excerto do livro A sabedoria da ternura escrito por Brennan Manning (págs. 22,23 e 24, Uma palavra antes…)

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