Lesões por esforço repetitivo – ler – têm de doer, sim. A leitura, não. Em frenesi polissilábico, Nick Hornby parece querer alertar: não transformem a leitura nessa coisa ridiculamente chata

O escritor britânico Nick Hornby deu pulos de felicidade quando a agente da revista The Believer lhe disse: na sua coluna, você poderá escrever sobre os livros que realmente quiser. Ou seja, nada de leituras recomendadas, obrigatórias ou chatas. Quer dizer, as chatas agora ficam por sua conta. Hornby exultou. Antes, comentava livros no velho esquema: recebia a incumbência de ler qualquer coisa e, depois da última página, emitir um parecer isento, fora do tempo e do espaço. Se por acaso tivesse uma dor de cabeça, as contas atrasassem ou os filhos adoecessem, nada disso importaria para o texto que teria pela frente. Em Frenesi Polissilábico: o diário de Nick Hornby, um leitor que perde as estribeiras, mas nunca perde a esperança (Rocco, 263 páginas. R$ 33), coletânea das colunas escritas não desse modo, mas daquele outro, inventado para a The Believer, vemos Hornby transformar a leitura numa coisa divertida, ligeira e sem terno e gravata.

Escritor (Um grande garoto, Alta fidelidade e Slam, todos pela Rocco), torcedor fanático do Arsenal e grande devorar de músicas, Hornby soube aproveitar a liberdade concedida. Em sua coluna mensal, ele fala da velocidade, do ritmo, da complexidade que envolve o ato de ler. Confessa detestar a chatice de encarar um livro pouco claro. Admite entediar-se se a prosa chama mais atenção do que aquilo que descreve. E odiar quando alguém da imprensa, geralmente os homens de letras que também são jornalistas, caçoam dos volumes de capa lustrosa que repousam tranquilos no colo das pessoas que tomam o metrô londrino. O que há de errado, o escritor se pergunta, em ler O Código Da Vinci, de Dan Brown, ou a famosa série que narra as aventuras de um bruxinho com marca na testa?

Para Hornby, não é totalmente inexplicável o fato de que a maioria das pessoas costuma associar o tédio à leitura, preferindo deslocar-se por quilômetros até o cinema ou virar a madrugada num bar ou mesmo assistir a algumas horas de televisão antes de despencar no sono, deitada na cadeira da sala ou, melhor, estirada numa rede. “O problema é que incutimos na cabeça que um livro pra ser tem que dar trabalho pra ler (…). Ler por diversão é o que todos nós deveríamos fazer. Vou lhe contar um segredo: nada de mau lhe acontecerá se você não ler os clássicos ou os romances que ganharam o Booker Prize deste ano. E, mais importante, nada de bom lhe acontecerá caso você os leia.”

Mas Frenesi Polissilábico não pode ser confundido com um extenso manifesto em favor dos best sellers ou do vale tudo na literatura. O livro, que reúne as colunas publicadas entre setembro de 2003 e julho de 2006, não prega o fim do que quer que seja. Nem moderação da crítica especializada ou mais profundidade às leituras feitas no ônibus. Hornby diz apenas: “Não há regra que diga que os hábitos de leitura de uma pessoa devem ter consistência”. Adiante, como a provar o que disse, Hornby reconhece haver comprado muito mais que lido. Leituras diversas, que vão de Tchekhov a Salinger, de Roth a Marjane Satrapi e Joe Sacco. Todas as suas colunas na The Believer trazem uma lista dos comprados e outra dos livros lidos. Raramente as duas coincidem. “Comprei tantos livros este mês que chega a ser obsceno. E, para ser sincero, tenho sido econômico com a verdade há meses. Não paro de encontrar livros que comprei, não li e não listei.”

Fonte: O Povo

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