– Não há dúvida que Você fez as coisas muito bonitas…
Silêncio do lado de lá.
– Ontem foi horrível, não?
Novo silêncio. Parecia que Ele estava gozando o seu encabulamento. Tentou desculpar-se.
– Mas que foi duro, foi. Talvez eu tenha sido um pouco precipitado.
Uma rajada de vendo abateu-se sobre o rio, a canoa e o seu rosto. Parecia até que o vento perguntava:
– Um pouquinho?
– Bem. Mas no meu lugar o que é que Você faria? Diga!
Não veio resposta, mas aquele vento queria dizer que do outro lado as coisas estavam receptivas. Remou mais e olhou o encantamento da paisagem, reconhecidamente.
– Obrigado. Mas eu tinha que desabafar. Jurei na minha vida confessar tudo que fizesse, do mais triste, do mais escuso, do mais feio. Tudo não passou de um desabafo, uma confissão. Depois, se eu não brigar com Você, com quem vou brigar nesse abandono todo?
Ficou com os olhos molhados, como um bobo. Remava sem jeito e espiava para o alto.
– Juro que eu não tenho mais raiva de Você. Nem que O detesto. Sabe, Deusão, Você é um sujeito formidável! Formidável mesmo. A gente precisa ter muita paciência às vezes com Você. Mas, vá lá. Eu perdoo tudo. Não estou mais zangado. Eu perdoo Você de coração…
Aí veio uma alegria imensa. O vento desceu para afastar os mosquitos. O rio correu mais para que Hermenegilda não se tornasse tão obtusa. E tudo ficou mais lindo porque Deus, sentindo-se perdoado, estava contente da vida. E saíram rio abaixo muito amigos de novo. Frei Abóbora na sua canoa dura e Deus remando a solidão dos homens.

José Mauro de Vasconcelos, em As confissões de Frei Abóbora (Melhoramentos)

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