Sou do tempo em que as denominações sentiam necessidade de publicar algumas verdades em forma de credo porque temiam perder sua identidade evangélica. Sempre vi aquelas listas com uma ponta de suspeição, por achar que a fé cristã não pode ser resumida a uma pequena coluna de revista ou jornal. Também não me sentia bem com aquele esforço de querer restringir os ensinos de Jesus a poucos conceitos teológicos.

Deve vir daí meu crescente desdém por uma espiritualidade racional e dogmática. Já não quero repetir verdades alheias e nem me especializar em pormenores bíblicos. Não creio que o Evangelho de Jesus careça de mais detalhamento técnico ou que os crentes, munidos de milhares de comentários bíblicos, saibam particularizar minuciosamente o texto sagrado. Precisamos de menos lucidez teológica e mais vida.

O barco evangélico faz água com sucessivos escândalos éticos; a sociedade brasileira se escandaliza com os porões do poder religioso; o braço da lei se estende na direção de líderes que, “pesados e achados em falta”, precisam fugir.

Anseio por outra igreja, pois, à semelhança da geração que saiu do Egito, sinto que esta não cumprirá o propósito de Deus.

Anseio ver emergir uma nova comunidade cristã sem ufanismos. Desejo ver os crentes vivendo de forma singela, procurando vestir os nus, visitando os enfermos, alimentando os famintos e anunciando aos pobres que chegou o reino de Deus. Espero pelo dia em que si tornarão ridículas as afirmações mercadológicas prometendo “explosão de milagres”.

Anseio por uma espiritualidade com menos espetáculo. Desejo que o culto deixe de ser um show, e que não precisemos de holofotes com produções mirabolantes para adorar a Jesus de Nazaré. O Cristianismo não necessita de que os pastores sejam artistas, e os adoradores, estrela do entretenimento. Jesus iniciou seu ministério com pescadores e donas de casa. Quanto mais bem produzidos comercialmente se tornarem nosso cultos, mais distantes nos encontraremos das raízes judaicas de nossa fé.

Anseio por uma espiritualidade comunitária. Desejo que nossas igrejas deixem de ser balcões de serviços religiosos e voltem a ser espaços de relacionamentos verdadeiros. Os crentes não podem ser tratados como clientes, e nem as igrejas como meras provedoras de ajuda espiritual. A fé cristã não se alicerça em funcionalidade, mas em intimidade. Pastores e líderes precisam parar de ensinar técnicas de como conseguir bênçãos e passar a falar do amor de Deus.

Anseio por comportamentos menos infantis dos crentes. A maioria quer se relacionar com Deus com o intuito de levar vantagem na vida. As pessoas querem passar no vestibular por meio da oração; ambicionam ser promovidas no emprego reivindicando promessas de que são “cabeça e não cauda”; acham que, anulando maldições, conquistarão grande sucesso. Precisamos de cristãos que apelam menos ao favor divino, mas que se dispõem como cooperadores de Deus. Precisamos de menos prece por consolo e mais busca do Espírito para que nos transformemos em resposta de oração.

Excerto do livro Sem perder a alma, crônicas de Ricardo Gondim.

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