“Em uma cultura na qual retirar água do poço era tarefa feminina, o poço era um lugar onde as mulheres, normalmente mantidas em isolament, podiam ser vistas em público e era possível até memso falar com elas. Em Genêsis 29:11, o despreocupado Jacó até se arrisca a beijar uma jovem desconhecida em um poço. Se o flerte e a galanteria sempre são exercidos por delicados jogos de duplo sentido, então o poço é um lugar onde qualquer coisa que seja dita pode ter um segundo significado oculto. (…)
Jesus pede água para a mulher, mas antes que ela o faça (será que chegou a lidar? Como é típico, a Bíblia não se importa em nos dizer), ele diz que ela deveria estar lhe pedindo água viva. Embora “água viva” seja uma expressão grega para água que jorra, água que sai esguichando de uma fonte como se estivesse viva, será que a mulher realmente pensa que Jesus está falando de água mineral? Será que ela não pode achar que essa interpretação, na culturalmente permissiva vizinhança de um poço, é uma leitura muito inocente do que aquele judeu forasteiro está insinuando? Ela tenta uma vez, sem rodeios, obter um esclarecimento, e então responde mais espertamente, de um modo que não a prejudicará se o forasteiro não estiver flertando, mas que pode manter a bola em jogo caso esteja: “Senhor, dá-me dessa água não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la”.”

Jack Miles, em Cristo: Uma Crise na Vida de Deus (Cia. das Letras)

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