Já ouvi gente se queixando de que, se Jesus era tanto Deus quanto homem, então os seus sofrimentos e a sua morte perderiam todo o valor a nossos olhos, já que “para ele deve ter sido fácil“. Outros poderiam (com muita propriedade) censurar a ingratidão e falta de graça dessa objeção. O que me abala nisso tudo são os mal-entendidos a que isso leva. Em certo sentido, os que assim pensam estão corretos. Eles entenderam bem a questão. A submissão perfeita, o sofrimento pleno e a morte perfeita foram mais fáceis para Jesus porque ele era Deus e, ao mesmo tempo, só foram possíveis porque ele era Deus. Contudo, essa não é uma razão um tanto estranha para não aceitar o que ele fez? O professor é capaz de desenhar as letras para uma criança porque ele é adulto e sabe escrever. Isso, sem dúvida, torna tudo mais fácil para o professor; e só porque é mais fácil para ele é que ele pode ajudar a criança. Se esta o tivesse rejeitado porque “é fácil para os adultos” e esperasse até aprernder a escrever com alguma outra criança que não soubesse isso, ela não avançaria muito rápido. Imagine que eu estivesse me afogando num riacho e que uma pessoa, que ainda tivesse um dos pés na margem, pudesse me dar uma mão que salvasse a minha vida. Será que eu teria o direito de gritar de volta (quase me engasgando): “Não, não é justo! Você está em vantagem! Você está com um pé na margem!”? A vantagem – chame-a de injusta, se quiser – é a única razão pela qual ela pode me ajudar.
Onde você acha que poderá achar ajuda se não fixar os olhos no que é mais forte do que você?

C. S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples.
Texto do dia 8 de Maio do livro “Um ano com C. S. Lewis – Leituras diárias de suas obras clássicas”

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