A velocidade da internet na dissolução da informação ainda não é o bastante para superar o valor dos livros e diminuir a frequência do público nas bibliotecas. Especialistas acreditam que a era digital veio para transformar esses espaços em sistemas multidisciplinares de atividades educativas e aprendizado, agrupando, além das prateleiras de revistas, jornais e livros, videotecas, computadores e gibitecas.

A função do bibliotecário ao longo dos anos também foi alvo de mudanças. A educação continuada desses profissionais, para que possam oferecer uma melhor orientação sobre os títulos que sugerem ao público, no entanto, segue como prioridade. Para estudiosos da área, essa deve ser uma iniciativa pessoal, além de contar com o incentivo das esferas governamentais para que haja formação não apenas didática, mas de interação com os visitantes.

Há 26 anos como bibliotecária, Juscilene Araújo Monteiro, de Diadema, diz que o papel da biblioteca é milenar e, atualmente, vai além dos livros. “Temos de estar preparados para atender tanto quem está no mundo virtual quanto fora dele. Preservar o livro e abrir maneiras de levar a informação é importante para o movimento das bibliotecas”, afirma.

A instalação de bibliotecas nas escolas fez com que as regiões centrais passasem a registrar uma maior presença de jovens e adultos. “Geralmente, nos bairros, as crianças vão sozinhas até a biblioteca por estarem mais próximas. Já no Centro tem mais a presença de universitários e adultos. O importante nesse processo é darmos suporte na mediação da leitura, estimulando e orientando as pessoas a sempre conhecer algo a mais sobre o assunto que busca. A internet é um suporte importantíssimo para os livros”, conclui a agente de biblioteca Maria Terezinha Morais Araújo.

Há 30 anos acompanhando a rotina da biblioteca municipal de Santo André Nair Lacerda, a gerente Glaucia Saspadino Lanzoni lembra que antigamente 80% da demanda de atendimento era focada nos estudantes, que muitas vezes iam copiar textos ou tirar xerox.

“Com o passar dos tempo, foi se criando um acesso mais rápido com o advento da internet, mas isso não ultrapassou o livro, que é a maior forma de preservar conteúdos. As pessoas têm prazer em pegar um livro para ler. O ambiente calmo para leitura e uma pesquisa confiante nos registros dos livros são alguns dos motivos que levam desde crianças até os adultos às bibliotecas”, diz

Glaucia também aponta mudanças estruturais nesses espaços. “A biblioteca deixou de ser uma demanda de produção para ser um centro de informação, com uma dinâmica mais rápida”, afirma.

MODERNIZAÇÃO – A atualização dos títulos oferecidos nas bibliotecas é uma necessidade importante para os frequentadores desses espaços. Diariamente a auxiliar administrativa Sônia Maria de Oliveira, 44 anos, reserva o horário do almoço para leituras na biblioteca. “Sempre gostei de ler e tenho muito interesse pela área da psicologia. Antigamente os livros da biblioteca de Santo André eram velhos. É importante que haja sempre a atualização das edições. Não acho que a internet seja tão confiável. Ainda prefiro os livros”, disse.

“Estou estudando para prestar concurso no Ministério Público e os livros que tenho de ler são muito caros. Imagine ter que comprá-los? Muita gente não tem condição”, disse o advogado Oscar Ziroldo, 28 anos, que todos os dias vai ao Centro Digital de São Caetano.


Reformulação acaba com o estigma de ‘guardador de livro”

A pesquisadora da ECA (Escola de Comunicação e Arte) de Universidade de São Paulo, Ivete Pieruccini, salienta a necessidade de uma reformulação dos ambientes das bibliotecas, proporcionando melhor interação para que se retire o estigma de que esses espaços são meros guardadores de livros.

“Precisamos guardar o material escrito, pois só assim teremos memória para apresentar às gerações. A internet veio para ajudar nesse trabalho, mas o importante é a criação de projetos específicos para não ocasionar o afastamento das pessoas”, explica Ivete.

O hábito de visitar bibliotecas para pesquisas de conhecimento também é uma empreitada que deve ser incentivada tanto pela família quanto na sala de aula. “Os professores não estão atuando como mediadores da leitura. Ainda é pouco o número de livros por habitante no Brasil”, lamenta a professora Maria Lucineide Pimentel Guimarães, de Diadema.

O secretário de Política Sindical da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), Carlos Ramiro, aposta que a opção de pesquisa em livros nas bibliotecas é um hábito que não será ferido pela internet. “Nas escolas da rede estadual, 70% das crianças precisam das bibliotecas, porém muitas delas viraram depósitos de livros e falta funcionários”, disse Ramiro.


Fonte: Diário do Grande ABC

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