Pouco a pouco a conversa se tornou interessante e Micrômegas falou assim:


– Ó átomos inteligentes, em quem o Ser Eterno manifestou engenho e força, vocês devem sem dúvida gozar as alegrias puras do seu planeta. Tendo pouca matéria e parecendo puro espírito, vocês devem passar a vida amando e pensando, o que é a verdadeira vida dos espíritos. A verdadeira felicidade, que não vi em parte alguma, deve existir aqui [na Terra] sem dúvida.

Essas palavras, todos os filósofos abanaram a cabeça. Um deles, mais franco do que os outros, admitiu de boa-fé que, à excessão de alguns habitantes pouco considerados, todo o restante é um agrupamento de loucos, malvados e infelizes:

-Temos mais matéria do que o necessário, para fazer muito mal, se o mal provém da matéria, e muito espírito, se o mal vem do espírito. Saibam, por exemplo, que, neste momento, há 100 mil loucos de nossa espécie, cobertos de chapéus, que matam 100 mil outros animais cobertos de turbantes, ou que são massacrados por eles, em quase toda a Terra, é assim que se faz desde tempos imemorais.

Conto “Micrômegas” de Voltaire, em “Os melhores contos de Aventura”, de Flávio Moreira da Costa. Ed. Agir.

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