“-Cure-me de sonhar, Doutor.
– Sonhar é uma cura.
– Um sonhadeiro anda por aí, por lonjuras e aventuras, sei lá fazendo o quê e com quem…Não haverá um remédio que me anule o sonho?
O médico ri-se, sacudindo a cabeça. Retira da sacola o estetoscópio, mas o doente, mal pressente a intenção, ergue-se, esquivo. Sidónio deixa escapar o aparelho que tomba entre chaves de fenda, alicates e apetrechos do ex-mecânico. Bartolomeu espreita de lado, com desconfiança de bicho:
– Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa viver para descansar dos sonhos.
– Sonhar só o faz ficar mais vivo.
– Para quê? Estou cansado de ficar vivo. Ficar vivo não é viver, Doutor.”

Mia Couto, em Venenos de Deus, remédios do Diabo (Companhia das Letras).

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