… eu sou parte dos homens. A gente tem o destino de nascer com um pedaço de Cristo, do homem filho de Deus, no coração: é apenas uma miniatura que injetam no coração das crianças. O meu Jesuzinho já começava até a andar quando um padre, um religioso, o assassinou dentro do meu coração. Então, para não ser totalmente abandonado de Deus, adaptei humanamente, já que não poderia fazer mais, Deus à minha inteligência. Ficamos bons amigos. Tomei intimidade com três dos seus maiores parceiros: Tom, Gus e Chico. E vou indo assim com Ele, fazendo as pazes, abusando da Sua Misericórdia, distribuindo sem pretensão um pouco do seu sorriso entre as faces humanas, para que Deus não fique mais triste do que me sinto hoje. (…) Deus! Deus! Deus! Um pouco de piedade hoje. Só hoje. Me ajude. Você conhece a honestidade do meu coração. Você conhece a sinceridade das minhas confissões. Sempre é a você que me mostro sem os sete véus da hipocrisia. Por tudo de lama ou esterco que existia ou existiu no meu coração. Pelas fezes da minha alma e do meu remorso. Pela sujeira em que chafurdei meu Cristo assassinado tão moço. Pela prostituição com que vendi meu corpo entre homens e mulheres. Pelas alucinações dos tóxicos que tomei. Pela fraqueza com que me vendi pela fome aos instintos dos outros. Pelo amor de Paula que me transformou de um gigolô num frade sem batina, um pária sem ninguém, pelas explorações que fiz dos índios, sobretudo pelo meu amor por Paula… Deus… Deus… Deus… ‘Tende piedade de mim. Um sorriso apenas para que não rebente o meu coração de solidão. Tende piedade dessa dor que conheceis. Eu agora vos trato por Vós, meu Deus. E não pode haver maior humildade do que isso…’

José Mauro de Vasconcelos, em As confissões de Frei Abóbora (Melhoramentos)

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments