– Agora, Zéfa, cante comigo, para festejarmos o meu aniversário. Faz de conta que estamos no seu lindo palácio, num salão enorme, cheio de armaduras reluzentes e que os círios iluminados circundam o vasto salão. Faz de conta que você e eu estamos caminhando de braços dados a distribuir sorrisos pelo ambiente superlotado de gente fina. Veja bem, minha rainha: de um lado estão todos os pederastas, putos, homossexuais, putas, rameiras, velhas cafonas, velhas ninfomaníacas, e toda uma corte de lama e podridão que lamberam a goiabada do meu corpo. E do outro, um bando de gente pobre sem rosto, sem significado, a quem pensei ter feito algum bem, em vez de ser bom… Façamos um leve inclinar respeitoso de cabeça a eles, pois que todos foram feitos à imagem do nosso bom Deus. Não somos nós quem iremos julgá-los, visto porque existem, porque saíram do genocídio de cromossomos que o próprio Deus permitiu que a natureza o fizesse.(…) Não cairá um só cabelo de sua cabeça sem que seja essa a vontade de Deus. Que mania de botar a culpa de tudo em Deus. Imaginem então que trabalheira Deus não deveria ter tido com os carecas. Maior parte do seu tempo passaria nisso e castigando os fabricantes de produtos de nascer cabelo… Bom, vamos soprar a vela e acabar com a festa. Assim que eu dizer flut-flupt, você canta comigo.

“Parabéns para mim
Nessa data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida…”

– Obrigado, obrigado, minha querida e linda amiguinha.

Ficou com os olhos cheios d’água contemplando o salão que se metamorfoseara de novo nas paredes esburacadas de um rancho e nos círios gigantescos que se fundiram no brilho minúsculo de dois olhos redondos de uma simples lagartixinha coscorenta. Baixou o rosto sobre as mãos e ficou sem vontade de mais nada.

José Mauro de Vasconcelos, em As confissões de Frei Abóbora (Melhoramentos)

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