eChegara o mês de outubro. A segunda quinzena se fora. Agora era época de ansiedade: seca. Podia ser como todos os anos. Podia ser também uma seca que durasse um, dois, três anos. Já tinha acontecido antes. A seca se prolongara por muitos anos e o flagelo começou a varrer todas as bandas do sertão do Rio Grande do Norte.

A miséria humana se desenvolveu tremendamente enquanto o sertão minguava, a ponto de expelir a gente que nascera ali para outras partes. Os homens ressequidos, as mulheres cadavéricas, as crianças barrigudas e amarelas, invadiam as cidades. Estendiam as mãos ossudas e pediam mais vida do que esmola. E os olhos do povo da cidade se enchiam mais de nojo que de piedade. Aquela miséria não comovia o coração, mas incomodava os olhos.
O cheiro e a miséria dos trapos também nada significavam para os homens da cidade. Os homens da cidade, que lêem os evangelhos, nunca se poderiam considerar irmãos daqueles espectros famintos. Aquilo não era gente. Era, sim, parte da terra, do sertão que secara. Barro queimado e inchado. Barro queimado e ressecado. Terra. Pó.

José Mauro de Vasconcelos, em Barro Blanco (Melhoramentos)

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