HOMENS! Chamar aquilo de homens! Aqueles seres que se fartavam de água. Depois, saindo à procura de comida pelo amor de Deus! A comida que a água bebida ensinava o estômago a reclamar. E eram muitos os homens estendendo as mãos para a caridade. Formando uma paisagem podre que faria doer a vista do citadino. Aqueles seres, para o higiênico, limpo e sadio homem da cidade, não podiam ser semelhantes seus, por mais que a religião de Cristo propagasse que sim.

Aquilo era mais uma fileira de caranguejos, recém-saídos da imundície dos mangues. Trazendo o odor, a catinga da lama dos brejos negros do Rio Potengi. Aqueles não podiam ser homens. Aqueles olhos que chamejavam inveja e cobiça, por tudo! Aqueles olhos trazendo uma marca de vingança, uma vontade de matar e de roubar, não eram de seres humanos. Eram, sim, de brutos, que não se importavam mais com o significado de civilização e de humanidade. Eles roubariam porque a seca tudo lhes roubara, deixando tanta coisa para o homem da cidade. Eles matariam porque a seca deixara as suas esperanças misturadas com o pó rachado do sertão, completamente mortas. A seca deixara, entretanto, para os homens da cidade, um ar sombrio de superioridade.

José Mauro de Vasconcelos, em Barro Blanco (Melhoramentos)

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