A Volta do Filho Pródigo está cheia de ambiguidades. Está viajando na direção certa, mas que confusão! Ele admite ser incapaz de fazer isso por conta própria e confessa que iria receber melhor tratamento como escravo na casa de seu pai do que como foragido num país estrangeiro, mas ainda está longe de confiar no amor do pai. Sabe que ainda é o filho, mas reconhece que perdeu a dignidade de modo que possa ser chamado “filho”; prepara-se para aceitar o status de “empregado” de modo que possa sobreviver. Há arrependimento, mas não um arrependimento à luz do amor imenso de um Senhor misericordioso. É um arrependimento que satisfaz ao próprio ego e permite sobreviver. Conheço muito bem esse modo de pensar e sentir. Equivale a dizer: “Bem, eu não poderia resolver sozinho, tenho de admitir que Deus é a única esperança que me resta. Irei a Ele e pedirei perdão, esperando que o castigo seja pequeno e eu possa sobreviver sob a condição de trabalhar duro. Deus continua a ser um Deus severo e julgador. É este Deus que me faz sentir culpado e temeroso, fazendo-me continuar procurando justificativas. A Obediência a este Deus não nos dá a verdadeira liberdade, mas resulta em amargura e ressentimento.

Um dos grandes desafios da vida espiritual é o de receber o perdão de Deus. Há alguma coisa em nós humanos que faz que nos apequemos aos nossos pecados e impede-nos de deixar Deus banir o nosso passado e nos oferecer um recomeçar inteiramente novo. Às vezes até parece que quero provar a Deus que minha miséria é grande demais para que eu a supere. Embora Deus deseje me devolver a total dignidade da filiação, fico insistindo que me contentarei em ser o servo eventual. Mas será que desejo mesmo voltar a ter a responsabilidade de filho? Será que almejo ser completamente perdoado de modo que se torne possível começar uma nova vida? Será que confio em mim e numa regeneração total? Desejo me afastar da rebelião profunda contra Deus e me entregar inteiramente ao seu amor, de modo que uma nova criatura possa surgir? Receber o perdão exige uma absoluta aceitação para deixar Deus ser Deus e fazer toda a cura, restauração e reparos. Enquanto eu mesmo quiser fazer isso, só obtenho soluções parciais, como a de ser um empregado. Como tal, posso manter certa distância, revoltar-me, repudiar, fazer greve, ir embora ou me queixar do salário. Como filho amado, devo exigir todo o respeito e começar a me preparar para ser o pai.

É claro que a distância entre dar a volta e chegar à casa deve ser percorrida com sabedoria e disciplina. A disciplina é a de se tornar um filho de Deus. Jesus aponta que o caminho para Deus é o mesmo caminho para uma nova infância. “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus.” Jesus não pde que eu continue criança, mas que me transforme em criança.

Tornar-me criança é viver à procura de uma segunda inocência, não a inocência de um recém-nascido, mas a candura a que se chega por opção consciente.

Henri J. M. Nouwen, em A Volta do Filho Pródigo

Estou encantado com a leitura deste livro que há muito tinha vontade de ler. Philip Yancey sempre o citava vez ou outra em seus livros. Se você quer refletir na profundeza da parábola do Filho Pródigo, esta literatura é essencial.

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