José Tarcizio, barbeiro que declama clássicos enquanto corta o cabelo dos clientes

por Sílvio Lancellotti

Imagine uma situação absolutamente inusitada, quase absurda. Você pode ser uma mulher ou um homem, pois ele, nobre caráter, não seleciona os seus clientes pelo sexo. O visitante chega a um mínimo salão de cabeleireiro em Indianópolis, entre Moema e o Jabaquara, talvez uns dez metros quadrados. Na parede de fundo, um aquário opulento com dois robustos peixes japoneses.

Encontra um profissional, de tesoura e pente em punho, que desembesta a entoar o “Navio Negreiro“, do antológico Castro Alves (1847-1871). Trata-se do mineiro José Tarcizio, 70, nascido em Martinho Campos, ocupante do espaço desde 1970.

Tarcizio aprendeu o ofício, menino ainda, aos 12, num internato de Belo Horizonte. Daí, aos 20, palavras suas, “frustrado por um sôfrego amor platônico”, decidiu se apoiar na poesia: “Hoje, tenho uma estantezinha com obras desde Homero”. No caso, o vate grego da “Ilíada” e da “Odisseia“, século 8º a.C.

Depois de uma experiência complicada na PM do seu Estado, e de tentar a vida como seresteiro noturno de rua, Tarcizio se transferiu para São Paulo e obteve um emprego de barbeiro pertinho da estação do Brás. “Escanhoar o freguês era um risco”, ele recorda. “O trem passava e balançava todo o salão.” Em busca de mais conforto, perambulou e perambulou, até desembarcar em Indianópolis, então um bairro absolutamente bucólico, com ruas de terra. Um português, Abílio Augusto Brilhante, hoje aos 92 anos, ofereceu-lhe o posto de seu assistente e não se incomodou com a sua mania: “Eu declamava até pelo ladrão”, relembra Tarcizio.

Melhor, determinado a se aperfeiçoar, ele se matriculou na Uati (Universidade Aberta à Terceira Idade) e começou a escrever: “Dias atrás, completei uma ode aos poetas, desde os helênicos, em sétimas de 49 versos”. E o visitante não se incomoda quando ele escancara a sua voz e, eventualmente, interrompe um corte de cabelo: “Todos gostam”. E, na realidade, quem não sabe do seu dom se surpreende, e pede mais.

Além de cuidar dos peixes japoneses, Tarcizio nutre uma paixão radical pelo Corinthians, pelos cinco filhos, pelos 12 netos e por dançar. Aos domingos, engaveta a navalha, se enfia em um terno, com a devida gravata, e se transforma num requisitado pé de valsa nos bailecos do Club Homs, na avenida Paulista, do Carinhoso, do Ipiranga, ou do Aquático, da Saúde.

Fonte: Revista da Folha

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