“Por quê, Sofia? Por que Sócrates teve de morrer? Até hoje as pessoas fazem esta pergunta. Mas ele não foi o único na história a ir até as últimas consequências e pagar suas idéias com a própria vida. Já citei aqui Jesus Cristo, e entre Jesus e Sócrates podemo estabelecer diversos paralelos. Vou mencionar apenas alguns.
Jesus e Sócrates já eram considerados pessoas enigmáticas no tempo em que viveram. Nenhum dos dois deixou qualquer registro escrito de suas idéias. Assim, não nos resta outra saída senão confiar na imagem deles que nos foi legada por seus discípulos. Uma coisa, porém, é certa: ambos eram mestres da retórica. Além disso, ambos tinham tanta autoconfiança no que diziam que podiam tanto arrebatar quanto irritar seus ouvintes. Para completar, ambos acreditavam falar em nome de uma coisa que era maior do que eles mesmos. Eles desafiavam os que detinham o poder na sociedade, porque criticavam todas as formas de injustiça e de abuso de poder. No fim, esta forma de agir lhes custou a vida.
Também há paralelos entre os processos de acusação de Jesus e de Sócrates. Ambos podiam ter pedido clemência e, com isto, ter salvado suas vidas. Mas eles acreditavam estar traindo sua missão se não fossem até as últimas conseqüências. E o fato de terem enfrentado a morte de cabeça erguida lhes garantiu a fidelidade das pessoas mesmo depois de sua morte.
Ao traçar esses paralelos entre Jesus Cristo e Sócrates, não estou querendo colocar um sinal de igual entre os dois. Quero dizer apenas que ambos tinham uma mensagem a transmitir e que esta mensagem estava indissoluvelmente associada à sua coragem pessoal.”

Jostein Gaarden, em O mundo de Sofia (Cia. das Letras)

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