Polêmico, mutante e antiquíssimo. Assim é o romance, gênero literário consagrado e identificado com a Era Moderna (e o mais bem- sucedido estilo literário). Tema de um vigoroso estudo organizado pelo italiano Franco Moretti, a expressão literária mais sólida do tempo presente é tema da edição de hoje do Caderno 3

De tão presente em nosso cotidiano, o romance bem que pode nos passar despercebido. Gênero da literatura marcado pela extensão da narrativa e pela complexidade de temas e personagens, ele se tornou uma espécie de expressão maior da prova – reverência que se converte em receio de muitos escritores em optarem pelo formato. O romance é, ainda, sinônimo da literatura comercialmente bem sucedida, há pelo menos dois séculos. Não que o comércio seja, ou algum dia tenha sido, o melhor critério para avaliar a produção literária. No entanto, seus dados são incontornáveis.

Em listas de livros mais vendidos, publicadas pela revista Veja e no caderno Cultura (do Diário do Nordeste), os dez títulos listados na categoria ficção são todos romances. Dados fornecidos pela Biblioteca Pública Estadual Governador Menezes Pimentel confirmam a predominância. Em setembro, os oito primeiros colocados entre os livros mais retirados pelos usuários da instituição foram ocupados por romances; em outubro e novembro, havia três romances entre os dez primeiros – no entanto, os demais eram livros didáticos e obras literárias de gêneros diversos cobradas no vestibular da UFC (realizado no mês passado). Se este monopólio do gênero não é percebido, talvez a explicação se dê pela classificação destes livros adorados pelo público como best-seller (adjetivo que fala de sua boa vendagem, mas não dá informações sobre o estilo).

Bons ou ruins, os grandes vendedores de livros de ficção de nosso tempo são todos romancistas: do brasileiro Paulo Coelho ao português José Saramago, passando pelo norte-americano Dan Brown (“O Código Da Vinci“) e a inglesa J.K. Rowling (da série Harry Potter)Nos dois casos, Contos, crônicas e poesias passam a largo do queridinho dos leitores.

Morte adiada

O vigor comercial do romance torna irônico, e um tanto absurdo, o anúncio de sua morte, no começo do século passado. No período que precedeu a II Guerra Mundial, o gênero sofreu uma série de ataques – ainda que se tratasse, em certos casos, de fogo-amigo. Textos como “Nadja” (1928), do surrealista André Breton, e “Memórias sentimentais de João Miramar” (1928), do brasileiro Oswald de Andrade, desferiram golpes frontais contra a velha forma. A longa narrativa dava lugar a uma prosa fragmentada, que se voltava sobre si e margeava a escrita que não literária.

Por outro lado, o irlandês James Joyce, em “Ulisses” (1922) e “Finnegans Wake” (1939), e o francês Marcel Proust, com o seu “Em busca do tempo perdido” (1913 a 1927), lhe prestaram uma reverência assassina. Estes escritores levaram o romance a seus limites, tão longe que houve quem chegasse a afirmar que seguir adiante seria impossível. De “Ulisses“, um crítico falou ser “um romance para acabar com todos os romances”.

Não acabou. O projeto “O Romance“, capitaneado pelo crítico literário e professor da Universidade de Stanford Franco Moretti, ajuda a explicar porque. O italiano organizou uma “expedição” para explorar o vasto território romanesco. Contando com o apoio de dezenas de especialistas (entre eles, alguns brasileiros como Luiz Costa Lima), Moretti se esforçou que o romance é bem mais antigo do que se pensa.

Marcos

“Os romances ingleses do século XVIII são considerados por eles, os pesquisadores ingleses, como o surgimento do gênero, associado à ascensão das classes médias ao poder. Como pesquisadora, não aceito esta distinção. Bem antes, na Grécia Antiga, você tem o romance helenístico; depois, a partir do século XII, depois de um hiato provocado pelo domínio da Igreja sobre as formas de expressão, os gêneros literários antigos ressurgem, e com eles o romance. É a época dos romances ´arturianos´, que falam do Rei Arthur e seus cavaleiros”, reconstitui a jornalista, escritora e pesquisadora Thais Rodegheri Manzano, responsável por um curso sobre a história do romance na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP – SP).

Entre os marcos deste período mais antigo do romance há a obra “O engenhoso fidalgo Don Quixote de la Mancha“, do espanhol Miguel de Cervantes. A aventura do velhote que enlouqueceu de tanto ler (bem ao gosto do dito cearense) trazia uma extensão fora do comum e aquilo que, segundo os especialistas, é uma das marcas do romance: sua ligação com o tempo presente. Em determinadas interpretações, Don Quixote é uma sátira dos resquícios do mundo antigo, aristocrático e feudal, a um novo tempo que se estabeleceria de vez alguns séculos mais tarde.

“´Robinson Crusoé´, de Daniel Dafoe, é o primeiro herói da burguesia. Náufrago, isolado em uma ilha que é transformada por ele, Crusoé encarna os novos valores da época, do trabalho árduo, do empreendedorismo burguês”, explica Manzano.

Forma livre

Perguntada pelo Caderno 3 sobre as principais razões da “estabilidade do gênero, a pesquisadora Sandra Vasconcelos (USP) respondeu: “É melhor dizer duradouro. Estável não é uma boa palavra para falar do romance. Na verdade, a sobrevivência do gênero, o tempo que ele está conosco, tem a ver com o fato de ele ser muito aberto, de não ter convenções muito rígidas. É um gênero que acompanha as mudanças históricas e sociais, e que se abre sempre para o tempo presente, para as questões presentes melhor dizendo. Já que ele pode tratar do passado longínquo ou próximo. Quando trata do passado ele tá sempre muito atento às questões presentes. Tem essa capacidade, de se modificar através dos tempos. Ele foi mudando desde século XVIII, momento que consolidou sua forma”.

Segunda ela, isto ajudaria a explicar o interesse que tantos pesquisadores das áreas de ciências humanas.

Manzano credita o sucesso do romance a falta de regras, que permite sua expansão e reinvenção. “O homem é uma contador de histórias. Por isto o romance permanece. Você precisa de experiências que nunca vai viver, é preciso sair de sí, experimentar a alteridade. A literatura te permite esta ampliação de seu conhecimento da condição humana. É por isso, também, que o romance faz tanto sucesso”, diz.

Fonte: Dellano Rio – Diário do Nordeste

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