Todo o mundo já viu, escutou e não conseguiu deixar de entreouvir a conversa de outros passageiros no ônibus falando sem parar em seus telefones. Há homens de negócio ávidos por se manterem ocupados e parecerem eficientes – ou seja, por se conectarem a tantos usuários de celulares quanto possível e mostrarem que de fato existem muitos deles prontos a receber sua chamada. Há adolescentes e jovens de ambos os sexos dizendo a alguém, em casa, por que estação haviam acabado de passar e qual seria a próxima. Você pode ter tido a impressão de que eles estavam contando os minutos que os separavam se seus lares e mal podiam esperar para estar com seus interlocutores em pessoa. Talvez não lhes tenha ocorrido que muitas dessas conversas entreouvidas não eram ouvertures de conversas mais longas e substantivas que prosseguiriam em seu lugar de destino – mas seus substitutos. Que essas conversas não estavam preparando o terreno para a coisa real, mas eram, elas próprias, exatamente isso: a coisa real… Que muitos desses jovens ávidos por dar seus paradeiros a ouvintes invisíveis iriam dentro em breve, logo que chegassem, correr para seus próprios quartos e trancar as portas.

Zygmunt Bauman em Amor Líquido – Sobre a fragilidade dos laços humanos

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