“E ao dizer essas últimas palavras Rodrigo falava alto e havia em sua voz um tom de alegre orgulho. O padre ficou por um instante num silêncio abafado. Olhou para a criatura que tinha a seu lado: a lua lhe batia em cheio no rosto. De tão claros, seus olhos pareciam vazios.
– Vosmecê já pensou no que lhe pode acontecer depois da morte?
– Não.
– Não tem medo de ir para o inferno?
Rodrigo cruzou as pernas, atirou o busto para trás e recostou-se contra a porta da capela.
– Padre, ouvi dizer que no céu não tem jogo nem bebida nem carreiras nem baile nem mulher. Se é assim, prefiro ir pro inferno. Além disso, as tais pessoas que todo mundo diz que vão pro céu por serem direitas e sem pecado são a gente mais aborrecida que tenho encontrado em toda a minha vida. Tenho conhecido muito patife simpático, muito pecador bom companheiro. Se eles vão para o inferno, é para lá mesmo que eu quero ir.”

Erico Verissimo, em Um Certo Capitão Rodrigo (Companhia das Letras).

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