“O medo nos leva a nos encerrarmos em jaulas. Não nos atrevemos a andar pelas ruas, pelos parques, pelos jardins, pelas praças. Abandonados, deixaram de ser nossa propriedade. Tornaram-se habitação dos lobos que neles ficam à espreita. E eu me pergunto: de que valem todas as coisas boas que se podem produzir numa sociedade, se estamos todos, todo o tempo, condenados ao medo?.

Houve um tempo em que eu invocava os deuses para me proteger do medo. Eu repetia os poemas sagrados para exorcizar o medo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não terei mal algum…”. “Mil cairão à tua direita, dez mil à tua esquerda, mas nenhum mal te sucederá…”. A vida me ensinou que esses consolos não são verdadeiros. Os deuses não nos protegem do medo. Eles nos convidam à coragem de viver a despeito dele.”

Rubem Alves, em Mansamente pastam as ovelhas (Papirus).

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