Blogs e redes sociais fazem editoras acabarem com o mito de que a internet rouba o público que consome literatura

Raquel Cozer – O Estadao de S.Paulo

A mais recente reformulação do site da gigante editorial Simon & Schuster, no mês passado, abriu espaço para um guia de bons modos on-line para escritores. As regras? Abra um blog. Entre no Facebook. Crie conteúdo para redes sociais literárias. Interaja.

Nada complexo para qualquer pessoa que tenha atravessado a última década na civilização, mas, vindo de uma das mais tradicionais editoras norte-americanas, o recado foi claro: estão por fora os alarmistas que veem a internet como um bicho-papão capaz de afastar da literatura quem tem disposição para ler.

O crescimento das redes sociais literárias no País no último ano ajuda a entender como o mundo digital e o editorial podem se complementar. A maior delas, o Skoob ( http://www.skoob.com/ ), foi criada por um grupo de amigos em dezembro de 2008 e já tem 150 mil cadastrados – há coisa de seis meses, mal passava dos 30 mil. São números consideráveis para uma rede que se descreve apenas como “um local onde você diz o que está lendo, o que já leu e o que ainda vai ler”. Mas o fato é que esse tipo de mídia tem um papel bem maior que o de “dizer o que se lê” – e isso é algo que as editoras nacionais apenas começaram a perceber.

Os primeiros milhares de usuários de redes como o Skoob e o Livreiro ( http://www.olivreiro.com.br/ ) chegaram pelo boca a boca virtual, em especial via Twitter. Mas o boom aconteceu depois que editoras como a Record e a Planeta identificaram o potencial desses sites e se ofereceram para participar. Viram ali um filão barato e eficaz para divulgar seus títulos: enviam uns poucos exemplares, e os sites de relacionamento os usam como prêmios em promoções. “É mais fácil divulgar um livro na internet que em qualquer outra mídia. Falando por uma rede, um blog, chegamos ao perfil exato do leitor que buscamos”, diz Debora Juneck, gerente de marketing da Planeta. O custo é quase zero, já que, como num viral, os internautas fazem a divulgação.

O negócio também é vantajoso para os criadores das redes. O analista de sistemas Lindenberg Moreira, 33, “pai” do Skoob, começou a ganhar dinheiro logo nos primeiros meses, quando o Submarino ofereceu uma parceria pela qual o site levaria uma porcentagem sobre os livros vendidos. “É exponencial. Da última vez que vi, estávamos vendendo uma média de 3 mil, 4 mil livros por mês.”

Situação parecida viveu em 2008 uma das mais antigas e conhecidas redes sociais para amantes da literatura, a norte-americana Shelfari. Quando chegou ao primeiro milhão de usuários, atraiu a atenção da Amazon, mas o site de compras não quis só parceria – comprou a rede de uma vez. No mesmo ano, a HarperCollins preferiu lançar o seu próprio site de relacionamentos, o Authonomy, definido como uma “meritocracia que visa acabar com a pilha de originais não lidos” sobre a mesa de editores. Nele, o candidato a escritor disponibiliza textos para download, outros usuários leem (de graça), comentam e votam. Ao fim de cada mês, as cinco mais bem colocadas são “avaliadas para publicação”. O blog da rede lista casos bem-sucedidos, mas o fato é que o maior benefício da Authonomy foi aproximar os leitores da editora. Deu tão certo que, há três meses, a HarperCollins lançou uma rede para adolescentes, o Inkpop.

No Brasil, a coisa anda mais devagar. Além de participar de redes sociais literárias, a maior parte das editoras criou perfis no Twitter e no Facebook. Quase nenhuma ainda tem um site que vá além da básica “loja online”, com estantes nas quais figuram os lançamentos.

A mais avançada nesse sentido é a Cosac Naify, que remodelou a página virtual e criou um blog há cinco meses. O segredo, diz o diretor editorial Cassiano Elek Machado, é oferecer material exclusivo. Há pouco, por exemplo, Machado convidou a escritora gaúcha Carol Bensimon, que mora e estuda em Paris, a percorrer a rua Vaneau, descrita pelo espanhol Enrique Vila-Matas no livro Doutor Pasavento, e relatar a experiência no blog. “Não pensamos na página como um espaço de vendas, é um lugar de relacionamento”, diz.

Neste mês, a Cosac comemorou uma efeméride só possível em tempos de 140 caracteres de fama. Completou um ano no Twitter e usou a data para angariar mais seguidores – conseguiu 800 de uma só tacada ao oferecer um exemplar da biografia Clarice para quem passasse adiante uma mensagem da editora.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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