“E falou de um incerto pai que não sabia dar tamanho amor pelo seu filho. Certa vez registou-se um incêndio no casebre em que viviam. O homem pegou no menino ao colo e se afastou da tragédia, caminhando pela noite afora. Deve ter superado o limite deste mundo pois quando, por fim decidiu colocá-lo no chão, reparou que já não havia terra. Restava um vazio entre vazios, rompidas nuvens entre desmaiados céus. Para si mesmo, o homem concluiu:
– Agora, só no meu colo meu filho encontrará chão.
Nunca esse menino se apercebeu que o imenso território onde depois viveu, cresceu e fez filhos não era senão o regaço do seu velho progenitor. Muitos anos depois, quando abria a sepultura do pai, chamou o seu filho e lhe disse:
– Vê a terra, filho? Parece areia, pedras e torrões. Mas são braços e abraços.”

Mia Couto, em Antes de Nascer o Mundo (Companhia das Letras).

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