Na prisão, o mterial de leitura se limitava praticamente ao Alcorão e a estudos corânicos. Eu tinha apenas dois livros em inglês que um amigo contrabadeara para mim por intermédio do meu advogado. Estava profundamente grato por ter algo para ler e melhorar meu inglês, mas não demorou muito até que as capas ficassem gastas, de tanto que eu lia aqueles livros. Um dia, eu estava caminhando sozinho quando vi dois prisioneiros fazendo chá. Ao lado deles, havia uma grande caixa de madeira repleta de romances enviado pela Cruz Vermelha. Aqueles homens estavam rasgando os livros para usá-los na fogueira! Não consegui me controlar. Afastei as caixas deles e comecei a pegar os livros. Eles acharam que eu os queria usar para aquecer o próprio chá.

– Estão loucos? – eu disse. – Levei muito tempo para conseguir que me enviassem dois livros em inglês e vocês estão esquentando chá com estes aqui!
– São livros cristãos – eles argumentaram.
– Não são livros cristãos – rebati. – São best-sellers do The New York Times. Tenho certeza de que não dizem nada contra o Islã. São apenas histórias sobre experiências humanas.

Os homens provavelmente ficaram se perguntando o que havia de errado com o filho de Hassan Yousef. Até então, ele ficara muito calado, sozinho na maior parte do tempo, lendo. De repente, estava delirando por causa de uma caixa de livros. Se tivesse sido qualquer outra pessoa, eles provavelmente teriam lutado para manter seu precioso combustível. No entanto, deixaram que eu ficasse com os romances, então voltei para a cama com uma caixa repleta de novos tesouros. Empilhei-os à minha volta e me deleitei. Eu não me importava como o que os outros pensavam. Meu coração trasbordava de alegria em louvor a Deus por me fornecer algo para ler enquanto tentava fazer o tempo passar naquele lugar.
Eu lia 16 horas por dia, até ter que forçar a vista por causa da iluminação ruim.

Mosab Hassan Yousef, em Filho do Hamas (Sextante)

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