Tenho cá para mim que brasileiro não gosta muito de ler em público. Abrir um livro ou jornal no meio de estranhos, credo, equivale a arrancar a roupa na frente da Catedral. É coisa do tarado da vila. Eu mesmo já fui repreendido pelo despudor de ter debulhado um romance no meio da rua: acusaram-me de pouco-caso, de ter panca. Fiquei com dó de mim.
Mas discordo. Se víssemos mais leitores “se despindo” na XV, nós os imitaríamos. Leitura dá coceira em quem vê. O mesmo vale para ciclistas, consumidores de cenouras orgânicas e pedestres, para citar três figurinhas urbanas cujas virtudes me­­reciam o céu.
A suspeita de que a leitura é vista como hábito doméstico se confirmou na magnífica pesquisa feita em 2008 pelo Instituto Pró-Livro. A maioria dos entrevistados disse que lê no recesso do lar. Suspeito de que tal ponto de vista nasça de uma confusão entre o que é ler e o que é fazer lição de casa. Ou entre ler e passar os olhos numa revista antes de apagar o abajur e babar na fronha. “Perigo, perigo”: ler é um ato libidinoso. Se não rolou, procure um oculista.
Lembro-me do que fazia o crítico Wilson Martins, morto em janeiro deste ano: ele lia depois do almoço, sentado num divã, com o cobertor sobre as pernas. Ou seja, lia como quem ia deitar a pestana depois da feijoada. Se a cabeça não despencasse, afirmava, tinha o primeiro indício de que o texto era bom. Os autores de soníferos odiavam esse método e se vingavam pintando-o co­­mo o monstro do Lago Ness. Mas essa é outra história.
O fato é que nos falta infraestrutura básica para desfrutar do direito de ler: horas vadias, poltrona do Emirates Airlines, a família de férias no Nepal, o cachorro na tosa e o telefone cortado. Resta-nos ler no ônibus. Ops!
Dia desses me disseram para não fazer isso, sob risco de “descolar a retina e ficar mais cego que Ray Charles”. Desconfiei do diagnóstico, mas como não sei cantar, tenho fechado as vistas nos solavancos. E sigo em minha imoralidade. Virou uma obsessão. Sonho escrever um “manual de leitura no coletivo”. Quero fazer dele um best-seller do naipe de Quem mexeu no meu queijo? Terei seguidores no double de­­cker bus de Lon­­dres e nas jardineiras de Assunção.
Parto do que vejo a bordo do “Água Verde-Juve­­vê”, onde os passageiros quase não emitem sons. Já tomei condução em tantas cidades e nunca vi nada parecido. O busão, portanto, responde às supostas circunstâncias ideais para a leitura: é mais silencioso que o mosteiro trapista de Campo do Tenente.
Seria perfeito, não fosse estarmos obrigados a quase sempre viajar em pé, sujeitos ao sacolejo involuntário das [nossas] cadeiras. Arriba. Manter um livro aberto nessas condições dançantes, só por pirraça. Mas se não fosse por ela, Appa Sherpa não teria subido o Everest 20 vezes. Sobreviver às viações Glória, Redentor e Do Carmo, idem, não é fichinha, mas dá-se um jeito.
Aconselho usufruir de uma das regras da cadeia: crie seu próprio quadradinho no coletivo. A tática tem selo de qualidade Carandiru. O povo respeita. Explico. Aquelas barras de me­­tal que vão do forro ao piso da lotação são o amparo do leitor aflito. Abrace-as como se fossem a cintura de sua garota e se incline 20 graus, formando seu pequeno território. Depois se­­gure o livro com as duas mãos e mande ver. Delícia.
Em tempo. Uma vez sentado, o pior lugar para ler são os bancos do fundo, onde o atrito das rodas conspira contra a ficção: é sempre um choque de realidade. Mesmo assim, mantenha a classe. Nada desperta mais curiosidade do que um leitor a bordo. Somos feitos de feições de surpresa e de risos no canto da boca. Queira Deus que nossa retina não descole. E que nem tudo seja passageiro.
José Carlos Fernandes

Foto: Daniel Castellano / Arte: Felipe Lima

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