O livro de papel vai mesmo morrer, como rezam os nerds mais extremistas? Você, eu, Umberto Eco e mais uma legião de leitores acreditamos que não. Em sua obra mais recente, lançada no Brasil em maio, o filósofo, semiólogo e linguista italiano defende sua opinião sobre o assunto logo no título: “Não contem com o fim do livro” (Ed. Record). “O livro, para mim, é como uma colher,um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais”, disse ele, em entrevista recente. E completou: “Eletrônicos duram dez anos; livros, cinco séculos”.

Não é de hoje que se apregoa o fim do livro. Há várias décadas, Walter Benjamin profetizava, com seu bigode indefectível: “O livro, na sua forma tradicional, encaminha-se para o seu fim.”

O tempo passou e presenciamos a sobrevivência do livro físico, até porque não há e-book capaz de suplantar a magia da página impressa. Ou será que estamos sendo ingênuos?

Leitor aponta vantagens do livro virtual

“O livro é tão imortal quanto a roda. Não é à toa que os dispositivos de leitura tentam imitar o conforto e a mobilidade do papel”, diz o jornalista Elias Pinto, 50 anos, colunista e crítico literário do DIÁRIO DO PARÁ. Imerso em sua biblioteca particular de mais de dez mil exemplares, ele se sente o personagem do conto “A Casa Tomada’, de Julio Cortázar: “É tanto livro que isso aqui parece um labirinto. Eles já tomaram os quartos, a sala… Para chegar ao computador preciso andar me esgueirando. Se preciso de algum título, é mais fácil comprá-lo de novo do que encontrá-lo nesse ringue”, brinca.

A geração de Elias ainda cultua o livro impresso. “Eu leria ‘Guerra e Paz’, ‘Ulisses’ ou ‘Grande Sertão: Veredas’ num leitor eletrônico?”, questionase. “Claro que não sou refratário quanto à tecnologia. Até quero um Ipad, um Kindle, mas só se me derem de presente”, ri.

Para o publicitário Gustavo Nogueira, 22, planner de comunicação digital, buscar e ler conteúdo na tela já virou rotina. “Estou acostumado. Se não fossem os e-books, eu não teria acesso a muitas obras técnicas da minha área. A internet me possibilita a praticidade de ter o livro a um clique”, diz. E completa: “Arrisco dizer que, com as novas plataformas,vamos ter cada vez mais leitores de cápsulas de conteúdo, como notícias em sites e textos em blogs. Para prender esse novo leitor em grandes quantidades de texto, será necessário oferecer imersão além do texto, através da interatividade e de outros recursos que o digital possibilita”.

Para Elias, contudo, essa multiplicidade de recursos pode representar um problema. “A ânsia por conhecimento diante do conteúdo virtual acaba por ser tão rasa quanto a tela de um monitor. Quando se quer clicar, clicar, não existe um momento de reflexão mais profunda”, acredita.

A verdade é que, enquanto se desenrola a discussão, os leitores eletrônicos como Kindle e Ipad – cuja popularização é fundamental para a difusão da leitura de e-books – ainda são raridade no Brasil. Um relatório elaborado em 2009 pela Comissão do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro aponta que o uso destes dispositivos ainda está restrito a uma camada de usuários iniciantes amantes de tecnologia – os chamados hard users -, e só ganhará massa crítica conforme baixem os custos dos equipamentos.

UNINDO FORÇAS

Na última quarta-feira, 1º, uma notícia aqueceu ainda mais a discussão sobre o futuro do livro: as cinco maiores editoras de livros do Brasil anunciaram a criação de uma plataforma para distribuição de e-books: a Distribuidora de Livros Digitais (DLD). Juntas, Objetiva, Record, Sextante, Intrínseca e Rocco atuarão na distribuição de e-books para livrarias on-line e empresas de conteúdo digital, além de oferecer seus serviços a outras editoras interessadas no novo negócio.

É o início da transformação do mercado editorial brasileiro, que ingressa aos poucos – e sem pressa nenhuma – no mundo digital. Esse processo deve acelerar com a popularização dos aparelhos de leitura, como o Kindle, o iPad e o Cool-er, primeiro e-reader do Brasil, com preço sugerido de R$ 750.

PRATICIDADE

Em Belém, só é possível comprar os leitores eletrônicos por meio da internet. Sílvia Bahia, 47 anos, é professora universitária de literatura e língua inglesa. Para não sair de casa com a bolsa abarrotada de livros, adquiriu um kindle em 2008. “Hoje tudo o que preciso para ministrar as aulas está no aparelho”, diz. E não foi só a praticidade que motivou a compra. “Quem gosta ou precisa ler literatura estrangeira sabe que ter um livro digital é muito mais barato do que ter a obra em papel, além da vantagem de receber o livro em tempo real”, diz ela, que além dos livros acadêmicos, tem no dispositivo títulos de poesia, romance e computação, até guias de viagem.

Incômodos na leitura? De jeito nenhum. “Embora folhear um livro físico seja um prazer, nós, professores, estamos acostumados a ler revistas científicas em pdf ou em versões eletrônicas no computador. Experimentei outros e-readers, mas confesso que estranhei. No caso do kindle, a tela adaptada, opaca, torna confortável a leitura, apesar da paginação diferente. Você pode escolher o tamanho da letra, pode ‘ouvir’ o livro em vez de ler… são muitas as vantagens. Gosto tanto que, em alguns casos, mesmo já tendo o livro em casa, busco o meio digital. Assim fico com um para consultas rápidas e posso levar o outro comigo, pra ler no avião, no hotel, aonde eu for”, conta. Gustavo também compartilha desse comportamento: “Não deixo de lado a experiência da leitura dos meus livros preferidos no papel. É com eles que aproveito os poucos minutos que passo longe da tela do meu notebook”.

ENTREVISTA: “Poucos vivem de vender livros”, diz Luiz Biajoni (foto).

Elogios e esculhambações depois, ‘Sexo Anal’ completa seis anos. Porque publicar na web? Como foi esse processo?
Luiz Biajoni: Quando escrevi o livro, já tinha um tempo de web. Em 2000 montei um site colaborativo chamado “Tiro & Queda”, foi uma das primeiras experiências de jornalismo colaborativo local no Brasil – no caso, na região de Campinas, SP. O site durou até 2004, quando faliu. Aí estava acabando de escrever o livro e tinha uma boa rede de amigos na web. Peguei o arquivo em Word e enviei para alguns amigos. Alguns desses amigos eram jornalistas. Alguns enviaram para outros. E comecei a receber alguns e-mails de amigos e de amigos de amigos fazendo considerações sobre o livro, muitos elogios. Tinha um dinheirinho guardado, então chamei um amigo que fez a editoração e imprimiu 100 exemplares do livro. Mandei para 16 editoras e nenhuma quis publicar. Hoje, dizem que a maioria nem chegou a ler, denegaram pelo título. “Não temos interesse em literatura pornográfica”. Me chamaram de burro; se eu quisesse escrever um livro pornô chamaria de… GRAMÁTICA ou de UMA MESA COM QUATRO CADEIRAS ou qualquer coisa não-pornográfica. É claro que um livro chamado “Sexo Anal” não é uma novela pornô. Quer dizer, tem sexo, mas ele tem uma função não-pornográfica. Enfim, quando vi que não iam publicar, botei para download no meu blog. Botei e deixei lá. Quando vi, estava com quatro mil downloads, uma loucura. Comecei a receber todo tipo de e-mail. Aí o jornal carioco “O Globo” escolheu quatro ou cinco e-books nacionais para resenhar, foi a primeira vez que um jornal fez algo assim, e lá estava meu livro, com uma resenha super elogiosa do crítico André Luis Mansur. Tinha link para o download, bombou. Uma pequena editora paulistana, OsViraLata quis fazer uma edição comemorativa de 10 mil downloads – e vendeu uns 250 livros. Por essa editora, lancei meus outros dois livros, “Virgínia Berlim – Uma Experiência” e “Buceta – Uma Novela Cor-de-Rosa“. Esgotaram-se as duas tiragens iniciais de 100 exemplares e a editora fechou. Publicando na web, sem retorno financeiro, fiquei um pouco conhecido. Tenho fãs, gente que me lê no mundo todo, no Canadá, no Japão, uma coisa louca. É bom existir o livro físico, ainda tem muita gente que não lê no computador, mas a web permite uma distribuição total, capilar.

E como avalias a experiência de disponibilizar o download gratuito do livro?
LB: Se o autor tem um trabalho paralelo e não espera ganhar dinheiro com a escrita, acho o melhor caminho. Se o livro for realmente bom, vai encontrar seu público, vai aparecer no boca-a-boca. E o autor pode ser convidado para alguns eventos, pode ganhar alguma grana indireta por causa do livro. Pode acabar sendo convidado para escrever para revistas, para quadrinhos, para o cinema… O escritor só não pode achar que vai escrever um livro, vender dez mil exemplares e enriquecer. Isso não acontece, é coisa raríssima.

Elvis & Madona’, sua obra mais recente, vai seguir esse caminho?
LB: “Elvis & Madona” apareceu assim: o cineasta carioca Marcelo Laffitte leu o e-book do “Sexo Anal” e me contratou para escrever o livro, a partir do roteiro que ele estava filmando. Ele fez o filme e eu escrevi o livro, que sai pela editora Lingua Geral em setembro – junto com o filme. A Língua Geral é uma editora de médio porte, que está começando no mercado de e-books. Vamos ver no que vai dar. Minha relação com Laffitte foi tão boa que temos um projeto de desenvolver um roteiro para cinema juntos, a partir de um argumento dele.

Já resolveu o que fazer com “Rogério – Porteiro de zona evangélico”? E quanto a “Dois caninos”? Será lançado (física ou virtualmente) este ano?
LB: “Rogério” está pronto, assim que me der na telha eu boto para download gratuito. Por causa de “Elvis & Madona“, abandonei “Dois Caninos” – e não tenho data para retomar. Tenho um livro infantil pronto e estou escrevendo “BoqueteUma Novela Vermelha“, a terceira parte da “Trilogia das Cores“, um projeto que nasceu da idéia de fazer uma “literatura marrom”, como fazem hoje o “jornalismo marrom”.

O novo livro do Umberto Eco diz: ‘Não Contem Com o Fim do Livro’ (Record). Qual a tua opinião sobre o assunto? O livro em papel, cola e tinta vai mesmo morrer, como rezam os nerds mais extremistas?
LB: Acho que o livro físico vai morrer, mas vai demorar muito. Talvez nós todos morramos antes.

Após seis anos de atividade, a editora ‘Os Vira Lata’ fechou em função da baixa procura: afinal, todos querem ler livros virtuais, mas sem ter de pagar por isso. Achas mesmo que isso é um comportamento geral? Ou dá pra ganhar dinheiro (enquanto autor) apostando nesse tipo de mercado?
LB: O Albano Martins Ribeiro, dono da OsViraLata, tem uma teoria que as pessoas não compram livros para ler, compram para dar de presente. E, assim, se guiam pelas listas de mais vendidos. O camarada que gosta de ler DE VERDADE, sabe o que quer e vai buscar o que quer onde quer que esteja. Se estiver na prateleira, ele compra. Se estiver na internet, ele baixa. Se for de graça, melhor. Se tiver que pagar, vai depender da grana que ele tem, se o site aceita seu cartão. Na verdade, poucos autores vivem de vender livros. Tem jeito de ganhar dinheiro com literatura, mas não é vendendo livros.

Fonte: Diário do Pará

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