Tião Nicomedes escreve, atua, ensina, bloga, critica: ‘As autoridades tendem a achar que um morador de rua falando é como se estivesse louco, delirando ou mentindo’

Nicomedes é nome de porte. “Aquele que planeja a vitória”, explica Tião. Também é nome de uma concoide, a concoide de Nicomedes, curva plana constituída por dois ramos situados em lados opostos de uma reta assíntota que intimida inclusive o dicionário. Na régua, Tião nunca planejou seu destino. Nascido há 42 anos em Assis, perdeu os pais aos 12, foi criado por uma irmã missionária de voto perpétuo, abandonou a Escola de Aprendizes-Marinheiros, virou churrasqueiro de churrascaria, pedreiro de obra, saqueiro da Zona Cerealista, candidato a atleta e chapa de caminhão. Mas não esperava – nem de longe – que seu destino envergaria como envergou em fevereiro de 2003, quando Sebastião Nicomedes de Oliveira caiu de uma altura de 6 metros na frente de uma loja da Rua Oriente, onde tentava emplacar o primeiro luminoso da sua recém-aberta Oliveira Arte Comunicação Visual. Sem nenhum aparato de segurança, ele ainda deu a boa sorte de bater num toldo, mas a má de receber por cima a placa, a furadeira e tudo o mais que seus colegas deixaram cair na tentativa – diz ele – de tentar segurá-lo.

Em reta descendente, Tião raciocinou: “Não posso cair sentado, não posso cair de costas, não posso cair de lado, não posso cair de cabeça, tenho de cair de pé. Tenho de morrer em pé”. Acordou na esquina da Oriente com a Dr. Ricardo Gonçalves sobre a mão esquerda dobrada em “Z”, o calcanhar direito meio enviesado e a cabeça fora de prumo. Mas não tinha morrido na frente da loja?

Quase. A sem-vergonhice de seus colegas e do dono do estabelecimento o arrastou até a esquina, de onde ele mesmo pediu ajuda pelo celular. Os bombeiros, informados de que Tião havia sido atropelado por moto ou carro, o levaram para o Vermelhinho, o hospital do SUS Vereador José Storopolli, no Parque Novo Mundo. Ali hibernou por oito dias, sem um alô sequer de Simone, a mulher que chamava de noiva. Saiu com o braço esquerdo engessado até o sovaco e uma bota no calcanhar. Na mão livre, amostras de remédio e um pedido médico para cirurgia no Hospital São Paulo. O pé só estava trincado, mas o punho precisava de uma placa de platina. Tião se lembrava bem do endereço da sala na qual dormia e onde funcionava a sua Oliveira Arte Comunicação Visual, que, em pouco mais de uma semana, de sua já não tinha nada. Os funcionários levaram todo o maquinário e devolveram o prédio alugado ao dono. A alegação: Tião tinha ido desta pra pior. Leia +

dica da Alzira Sterque

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