Tem um verso de uma linda canção da banda Radiohead, There There, que volta e meia me vem à cabeça: “Just ‘cause you feel it/ Doesn’t mean it’s there” (em tradução muito livre, algo como “só porque você está sentindo, não quer dizer que seja real”).

Algumas pessoas com mais frequência do que outras, todos somos levados, eventualmente, a agir e reagir como se a emoção do momento estivesse no comando, e não a cabeça. O sentimento até pode ser genuíno – dor, ciúme, raiva, paixão – mas nem sempre a leitura que fazemos da realidade guiados por essa emoção é correta, justa ou adequada para a ocasião. Para não fugir ao tema obrigatório do dia, deixar-se levar pela emoção pode fazer com que torcedores apaixonados exagerem os méritos do próprio time ou subestimem as qualidades dos adversários. Só porque você sente, não quer dizer que esteja lá.

Mas se a gente nem sempre pode confiar no que sente, será que dá para contar com aquilo que acreditamos ser a sensata voz da razão? Essa é a provocação do livro Você Pensa o que Acha que Pensa? – Um Check-up Filosófico (Editora Zahar, R$ 19,90), lançado há pouco no Brasil. Criadores de uma popular revista de filosofia na internet ( www.philosophersnet.com ), os autores Julian Baggini e Jeremy Stangroom propõem 12 testes que ajudam a medir até que ponto o leitor é fiel aos princípios que defende – ou seja, se ele é realmente aquela pessoa que, na maior parte do tempo, acredita ser.

Tirar uma vida é sempre, em todas as situações, moralmente condenável? Tudo que é antinatural é necessariamente errado? Como julgamos se um artista é bom ou não? Existem verdades absolutas ou tudo é relativo? Os questionários identificam tensões, ou contradições, nas nossas opiniões sobre determinados assuntos. Será possível, por exemplo, acreditar em livre-arbítrio e ao mesmo tempo em destino? Uma impagável frase de George W. Bush usada como epígrafe no livro parece resumir a enrascada: “Tenho as minhas próprias opiniões – opiniões sólidas –, mas nem sempre concordo com elas”.

Os assuntos são sérios – ética, moral, tabus, religião –, mas o livro não tem nada de chato ou complicado. Exige alguma paciência de quem se dispõe a se submeter a todos os testes, mas o resultado pode ser bastante revelador e intrigante. Ficamos sabendo, por exemplo, que a maioria das pessoas (cerca de 75%) que se submetem ao teste de lógica acerta apenas duas das quatro questões, todas aparentemente muito simples (foi o meu caso, aliás).

Se a lógica é “a anatomia do pensamento” (John Locke), é possível concluir que trocamos os pés pelas mãos mais frequentemente do que imaginamos na hora de analisar um argumento. Agora que a campanha eleitoral vai começar de verdade, essa é uma boa desconfiança para manter em mente.

Primeiro Capítulo

Cláudia Laitano, no ClickRBS

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