por Bruno Pontes

Desço ao saguão do hotel. Concluíra os afazeres profissionais e queria aproveitar os 40 minutos que me restavam de Rio de Janeiro. Consulto o recepcionista. “Tem uma biblioteca por aqui, não tem?” “Tem a Biblioteca Nacional. É só ir direto na Rio Branco”.

Dez minutos depois, encaro a fachada do recinto que receberia uma breve visita minha e com um objetivo traçado durante a caminhada. “É agora ou nunca. Tem que ter esse livro lá. Não é possível que não tenha”. E, de fato, ao observar a suntuosidade do interior, concluo com íntima alegria: “Aqui tem!”

Uma menina simpática pega meu nome, RG, CPF, telefone, o diabo. Recebo um cartão magnetizado, para entrada e saída. A burocracia me fascina e me fortalece a certeza. “Aqui tem!” Sigo por um corredor chique e silencioso. Para satisfação da massa ali presente, adentro a sala de leitura da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Na ponta dos pés, com medo de respirar, vou ao computador de consulta. Digito o autor: “Olavo de Carvalho”. Surge o Eldorado na tela: “O Jardim das Aflições”.

Sorrio, temendo que o movimento facial produza ruído. Finalmente colocaria as mãos naquela obra e leria duas ou três de suas páginas. Nunca a encontrei em Fortaleza; ao que parece, a edição esgotou e os exemplares tornaram-se barras de ouro cobiçadas por um grupo seleto, no qual me incluo modestamente.

Pego a ficha no balcão, boto nome, telefone, escolaridade, cidade natal, título do livro, autor, número de localização e coisa e tal. Entrego ao homem do balcão, que me manda sentar e aguardar. Aguardo bastante. Todo mundo recebe os livros, e eu, nada. Olhando o relógio, penso tragicamente: “Devo ter preenchido errado o negócio”. Já com cara de choro, vejo um homem vindo em minha direção, de mãos vazias. “Senhor Bruno?” “Sim”. E então, a bomba:

– Olha, esse livro… sumiu do nosso acervo.

O riso é inevitável. E acho graça do pudor daquele homem: “Sumiu. Presume-se que…” Não completa a frase, como se a reticência camuflasse o óbvio. Completo por ele: “Presume-se que o livro tenha sido surrupiado”. O homem sorri, balança o crânio afirmativamente. Agradeço e vou embora rindo.

Enquanto desço a escadaria, vem um pensamento cheio de palavrões. “O Olavo é ****! Teve um livro roubado da Biblioteca Nacional!” Vibro com o crime. No último degrau, sinto inveja do ladrão e admito sem vergonha. “Eu teria feito a mesma coisa”.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments