– Por falar nisso, Dorian, “qual a vantagem de um homem em conquistar o mundo inteiro e perder” – como é mesmo a citação?
– “a própria alma”?
A música desentoou, Dorian Gray sobressaltou, olhou fixo para o amigo.
– Por que você me pergunta isso agora?

Surpreso, lorde Henry ergueu as sobrancelhas.

– Meu caro companheiro, fiz-lhe a pergunta porque pensei que você pudesse me dar a resposta; só por isso. Domingo passado, eu passeava pelo Parque e, junto ao Arco de Mármore, vi um ajuntamento de pessoas esmolambadas atento a um desses pregadores vulgares da rua. Ao passar por ali, ouvi o pregador, em voz alta, lançar essa pergunta à plateia, e a pergunta me pareceu bastante dramática. Londres é muito fecunda nesse gênero de efeitos curiosos. Um domingo chuvoso, um cristão insólito, trajando uma capa de borracha, e uma roda de rostos alvos, doentios, abrigada ao teto furado de guarda-chuvas repletos de goteiras, e essa frase maravilhosa arremessada ao ar por lábios estridentes, histéricos. A seu modo, foi muito bom, de uma pertinência insinuante. Pensei em ir dizer ao profeta que a arte possui alma, mas o homem não. Receio, entretanto, que ele não me compreenderia.

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray (Abril)

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