– Não mude com relação a mim, Dorian. Você e eu sempre seremos amigos.
– Você fala assim, Harry, mas um dia me envenenou com um livro.

Eu não deveria perdoá-lo. Quero que me prometa uma coisa, Harry, jamais emprestar aquele livro para alguém. É um livro maléfico.

– Meu caro menino. Isso já é querer moralizar. Assim, em pouco tempo você estará por aí, como um ressurgente, um prosétito, a alertar as pessoas contra os pecados de que já se cansou. Você é encantador demais para isso. Além disso, que utilidade teria? Você e eu somos o que somos, e seremos o que seremos. E, quanto ao fato de ter sido envenenado por um livro, isso não existe. A arte não tem qualquer influência sobre a ação. É estéril, em sua soberba. Os livros que o mundo chama de imorais são os livros que mostram ao mundo a própria vergonha. Eis tudo. Mas não discutamos literatura. Apareça, amanhã.

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray (Abril)

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