Eles constituem um fenômeno editorial. Basta uma espiadela rápida em qualquer lista de livros mais vendidos – de livrarias a revistas semanais – para checar que eles são campeões de vendas. Bons exemplos são “O Monge e o Executivo”, de James Hunter, e “A Cabana”, de William Paul Young. Até dezembro de 2009, ambos tinham vendido cerca de 3,5 milhões e 11 milhões, respectivamente, em todo o mundo. A crítica e a elite intelectualizada podem até torcer o nariz, mas os títulos de autoajuda têm lugar cativo entre os leitores brasileiros. Razões não faltam, mas entre elas estão o preço, mais em conta do que um título de literatura convencional (ou “séria”, como dizem os inimigos do tema), e a variedade de assuntos: há obras para lidar com perdas, agarrar marido, recuperar a fé, ganhar mais dinheiro, educar os filhos, vencer a depressão, conviver com gente difícil…
Para a psicóloga cognitivo-comportamental Mara Lúcia Madureira, de São Paulo, o crescente aumento nas vendas de livros de autoajuda se deve a uma multiplicidade de fatores. “Trata-se de uma leitura fácil, que não requer grande esforço mental para a compreensão do texto. São obras muito bem difundidas pela mídia, reforçadas por veículos de comunicação respeitáveis e que propõem soluções simples, nem sempre válidas ou efetivas, para problemas complexos. E estão disponíveis e acessíveis a qualquer pessoa devido ao baixo custo”, enumera.
Outra razão que explica a alta vendagem é que, em vez de seguir uma religião, muitas pessoas hoje em dia se dizem “espiritualizadas”. Nos últimos anos, o ensino religioso e as práticas religiosas formais perderam espaço nas tradições acadêmicas e familiares. Para muitas pessoas, esse tipo de literatura pode ser uma tentativa de compensar a falta ou preencher esta lacuna.
E, se até pouco tempo atrás havia certa impressão de que o público-alvo desse tipo de literatura era formado basicamente por mulheres, hoje o cenário é bem diferente. “O público consumidor de livros de autoajuda é muito variado”, afirma Mara Lúcia. “Inclui desde adolescentes até executivos, passando por donas de casa, religiosos, pessoas desempregadas, arruinadas financeira, amorosa e afetivamente. Pais desnorteados em relação à educação dos filhos, pessoas com depressão, ansiedade, compulsões e outras patologias, resistentes ou avessas a tratamentos médicos ou psicológicos”, diz a psicóloga.
Eunice Madeira, professora de graduação do curso de psicologia da Universidade Veiga de Almeida, do Rio de Janeiro, tem uma teoria sobre o assunto. Segundo ela, no mundo global de hoje, conectado pela tecnologia, o ser humano está cada vez mais só. “O olho no olho sempre foi um poderoso agente da certeza do outro através dos tempos. Hoje, rapidamente transitamos pela notícia, chegamos às informações, porém sempre mediados por um instrumento. O contato físico, a proximidade, a tonalidade de uma voz que nos irrita ou nos faz vibrar, que nos obriga a viajar no tempo, que coloca nossas ideias de pernas para o ar se perdeu, nos deixou órfãos desta química que nos lembra a todo instante a condição de parceiro, de cúmplice da vida. Assim, quem escreve livro de autoajuda o faz não para cada sujeito, mas para seu íntimo, esse universo onde habita a magia da solidão”, acredita.

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