Carlos Araújo – Cruzeiro On Line

O livro continua sendo uma saída para situações difíceis ou, como queiram, um caminho que leva a novos horizontes de vida. Um exemplo pode ser visto na internet em vídeo que mostra a história de um homem chamado Randy Kearse. Ex-traficante, ex-presidiário (13 anos, seis meses e dois dias na cadeia), ele utilizou a experiência vivida para escrever um livro e vendeu 14 mil cópias no metrô de Nova Iorque. Perdeu um irmão, o melhor amigo, e chegou ao fundo do poço. Agora, no interior de um vagão, praticando o que há de melhor em técnica de vendas, ele provoca os consumidores referindo-se às cópias vendidas: “Isso significa duas coisas: eu tenho um livro bom ou sou um bom vendedor. Isso vocês terão que decidir (comprando o livro).” Nos dias de ótimos resultados consegue vender até 35 volumes em quatro horas de peregrinação pelo metrô. O livro foi a salvação da sua vida.

A iniciativa não é nova, mas é sempre uma demonstração de coragem e crença no poder transformador do livro. No Brasil, um exemplo clássico dessa espécie diferente de camelô foi Plinio Marcos, o genial autor de “Barrela” e “Dois Perdidos Numa Noite Suja”. Durante muitos anos, ele também era visto nas calçadas de São Paulo, nos bares, nas escolas, com livros debaixo do braço para oferecê-los diretamente ao leitor. Os contatos eram regados a saborosas conversas sobre a vida, a sociedade, a literatura.

A validade desse tipo de comportamento é reconhecida pelo escritor Moacir Assunção, autor do livro “Os Homens que Mataram o Facínora”, uma obra sobre o cangaço e Lanpião. Ele utiliza a expressão “camelô do livro” para ilustrar sua disposição de ir a todos os lugares que o convidam para falar da sua obra.

Há casos em que o livro foi produto de forte presença na vida de pessoas em períodos de extrema dramaticidade. O italiano Alberto Moravia, autor de “A Ciociara” e “Os Indiferentes”, usou o livro como alternativa para passar meses num hospital. O escritor Hosmany Ramos, autor de “Pavilhão 9: Paixão e Morte no Carandiru”, utilizou o mesmo recurso para suportar os muitos anos de prisão. Na Rússia do século 19, o clássico Fiódor Dostoiévski, tomou como companhia um livro especial para muitas gerações: a Bíblia. Não é à toa que os valores bíblicos e filosóficos sustentam grande parte dos seus romances.

Desde a infância, garoto de periferia na Grande São Paulo, troquei a bola pelo livro e ele me acompanha até hoje. Foi o livro que preencheu os meus tempos de solidão infância, na adolescência e na fase adulta e me proporcionou “viagens” no tempo e no espaço que eu jamais teria condições de fazer pelas vias convencionais. Não existe maneira mais emocionante de conhecer a Rússia do século 19 do que pelo mergulho nas páginas de “Guerra e Paz”, de Leão Tolstói, ou de “Almas Mortas”, de Nicolau Gógol. E que oportunidade o livro nos oferece de entrar em contato com a Paris também do século 19 pelas obras de Honoré de Balzac. Há mais do Rio de Janeiro e do Brasil nos romances e contos de Machado de Assis, Jorge Amado, Dalton Trevisan, do que em qualquer tratado de sociologia.

O livro também cria uma intimidade tão forte entre autor e leitor, que é como se eles passassem a se conhecer. O elo de ligação é a obra. Quem ama o livro passa a ter uma familiaridade com obras e autores tão natural quanto o que acontece na relação entre torcedores de futebol e o mundo da bola, dos jogadores, dos cartolas, dos negócios de compra e venda de atletas. Apaixonados por livro sabem que ele pode ser tão prazeroso (e, mais que isso, perturbador) quanto ir à praia ou a uma balada.

Os governos também reconhecem o poder transformador do livro. Não é por acaso que ditadores mandaram queimar livros que consideraram nocivos às suas ordens e vontades. Outros mandaram assassinar escritores e poetas. Máximo Gorki e Isac Babel, na antiga União Soviética, e Frederico Garcia Lorca, na Espanha, são exemplos dessa barbárie. Pior para os assassinos, que não conseguiram eliminar as obras deixadas pelas vítimas.

E, por falar nisso, o livro voltará ao centro das discussões em agosto em dois acontecimentos que vão dar o que falar: a Festa Literária Internacional de Parati (Flip), entre os dias 4 e 8, e a 21.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi no período de 12 a 22.

Para os que amam os livros, vão ser duas grandes festas, e com uma característica especial: os penetras são muito bem-vindos.

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