Livros estimulam leitura entre os jovens sem cair no risco da banalização

Marcello Castilho Avellar – EM Cultura

Quanto mais adaptações de clássicos literários para quadrinhos chegam às bancas e livrarias, mais elementos temos para debater uma polêmica significativa: se uma das funções da arte é formar as pessoas para instrumentalizar o máximo possível de linguagens, que formação esta vertente específica do mercado editorial está oferecendo aos leitores, principalmente os mais jovens? Os mais otimistas dizem que os clássicos nos quadrinhos estimulam as pessoas rumo à intimidade com os livros e a um salto para a literatura convencional. Os pessimistas afirmam que não é nada disso: o que teríamos diante de nós seria uma banalização e uma diluição do que a literatura teria de melhor. O lançamento, pela Farol HQ, de uma série especificamente voltada para o gênero mostra as nuances que existem entre estes dois extremos. Já estão à venda títulos como Moby Dick (adaptação do original de Herman Melville por Lance Stahlberg, desenhos de Lalit Kumar Singh), Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll/ Lewis Helfand/ Rajesh Nagulakonda), 20.000 mil léguas submarinas (Júlio Verne/ Dan Rafter/ Bhupendra Ahluwalia) e O senhor do mundo (Verne/ Dale Mettam/ Suresh Digwal).

O melhor deles é Moby Dick. Stahlberg consegue captar o clima construído por Melville, e nos apresenta uma narrativa que, na maior parte, não prende nossa atenção pelo que está ocorrendo, mas pelos presságios que a ocorrência constrói. Isso é dado tanto pela síntese elaborada pelo adaptador quanto pelo tom sombrio dos desenhos. Stahlberg é capaz, também, de nos apresentar com extrema eficiência, num crescendo contínuo, o retrato da personalidade obsessiva do capitão Ahab (o tradutor preferiu “Acab”, não se sabe por quê). Mas para sintetizar a enormidade de Moby Dick em 88 páginas ilustradas, a adaptação renuncia a elementos que estão entre as melhores coisas que o livro tem a oferecer: elimina quase completamente as reflexões metafísicas e sociais do narrador, o marujo Ishmael, a crônica da vida nos navios baleeiros, e o jogo de referência com a Bíblia, a história ou a literatura. O resultado é que o Moby Dick dos quadrinhos, para contar a história da busca de Ahab pelo cachalote branco Moby Dick, acaba enfraquecendo o caráter de alegoria que é um dos traços mais marcantes do romance.

Alice no país das maravilhas padece do mesmo defeito. Mas o que em Moby Dick é apenas um prejuízo, aqui é fatal. Quando a adaptação tenta apenas contar a história em uma narrativa cuja essência é a lógica (ou a ausência dela), como em Alice, elimina por completo o que ela tem de singular. O resultado é um conto linear, bem comportado, em que a ilustração, por mais exuberante que seja, é incapaz de substituir o jogo das palavras. E, nessa incapacidade, elimina a possibilidade de algo que a palavra escrita tem, a faculdade de fazer funcionar a imaginação do leitor. Em Moby Dick temos o contrário: por mais belas que sejam suas imagens sombrias, elas sempre parecem remeter a algo insinuado, algo fora do quadro, que só pode ser construído pelo leitor.

As adaptações de Júlio Verne acabam tendo maior sentido cultural por serem lançadas simultaneamente. 20.000 léguas submarinas é o livro mais célebre do autor, representa bem tudo o que dele geralmente se imagina; O senhor do mundo é obra bem menos conhecida. E os dois se parecem bastante: Robur, o vilão de O senhor do mundo, é quase decalque do capitão Nemo, protagonista de 20.000 léguas. Mas enquanto este é típico livro da fase de maior popularidade de Verne, O senhor do mundo, escrito quase no fim de sua vida, é uma das obras que mais revelam seu pessimismo no ser humano e sua descrença no progresso tecnológico. As ilustrações das duas adaptações acabam captando bem essa diferença: 20.000 léguas é exuberante, como se os quadros convidassem o leitor a uma viagem, enquanto O senhor do mundo é sombrio, como se nos advertisse a permanecer distantes tanto da trajetória de suas personagens quanto do mundo trágico que habitam.

Alice no país das maravilhas
O matemático britânico Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898) publicou Alice no país das maravilhas em 1865, assinando com seu pseudônimo literário, Lewis Carroll. O livro trouxe para a literatura elementos que vão da estrutura dos sonhos à lógica matemática. Sua narrativa, sobre uma menina que depois de cair por um buraco profundo vai parar numa terra onde coisas impossíveis acontecem, funciona quase como um jogo marcado pelo absurdo, o nonsense, o deslocamento permanente de sentidos. Ao mesmo tempo, Carroll constrói uma divertida crônica dos costumes da Inglaterra no século 19, que permanece viva e universal pela maneira como expõe o ridículo de certas regras de moral e etiqueta, certos comportamentos políticos e sociais, certas convenções que se perpetuam mesmo depois que deixam de ter sentido na cultura que as criou.

Moby Dick
O clássico do americano Herman Melville (1819-1891) sobre um grupo de homens do mar que persegue obsessivamente o cachalote que devorou a perna de seu capitão foi publicado em 1850. Inicialmente recebido com frieza tanto pela crítica quanto pelo público, sua dimensão cultural foi crescendo no século 20, sendo reconhecido como matriz de muitas conquistas da arte dos modernistas em todo o mundo. Se o espírito geral é romântico, apresentando a trágica luta entre o ser humano e forças muito superiores a ele, Moby Dick, mesmo com suas digressões e meditações, foge da forma de seus contemporâneos, apresentando unidade incomum e lógica “masculina” que privilegia a ação e converte o sentimento em peripécia. Uma das maiores representações da fragilidade do ser humano e da vaidade do sonho de controlar o universo.

20.000 léguas submarinas e O senhor do mundo
O francês Júlio Verne (1828-1905) lançou o primeiro livro em 1870, e o último em 1904. Eles têm muito em comum, tanto do ponto de vista da estrutura narrativa quanto no que se refere à inserção do autor num mercado editorial que cresceu de maneira significativa durante sua vida. Ambos tratam da perplexidade do homem comum frente à revolução tecnológica e a impossibilidade da convivência do gênio com o restante da humanidade. Ambos foram experiências de criação seriada: o sucesso de 20.000 léguas submarinas levou Verne a escrever, poucos anos depois, A ilha misteriosa, enquanto O senhor do mundo foi uma continuação de Robur, o conquistador. São dois dos romances de Verne que melhor expõem o tanto que ele se informava sobre tecnologia. O autor não inventava as coisas, apenas projetava como poderia ser o desenvolvimento das conquistas que a maioria da população desconhecia: o veículo aéreo-terrestre-marítimo de O senhor do mundo, por exemplo, chegou às páginas do autor apenas três anos depois do voo de Whitehead e alguns meses depois do dos Irmãos Wright.

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