MARTA BARBOSA, no UOL
Dois historiadores famosos por suas desavenças públicas (que rendiam debates calorosos em congressos) e suas interpretações de uma mesma passagem do Livro do Gênesis. Esse é o ponto de partida de “Manual da Paixão Solitária”, do escritor Moacyr Scliar (Companhia das Letras), umas das atrações nacionais confirmadas para a Flip 2010. Neste livro, vencedor do Prêmio Jabuti como Livro do Ano de Ficção de 2009, o autor repete o que se tornou sua marca na literatura: dar novas interpretações a textos bíblicos.
A passagem destacada desta vez envolve Judá, patriarca de uma pequena comunidade hebraica, seus três filhos (Er, Onan e Shelá), e a bela Tamar, que se envolve com os três homens. Durante um congresso de estudos bíblicos, especialistas do mundo todo tentam decifrar os códigos apresentados no episódio. Ciúme, sexo, homossexualismo, traição e morte compõem a passagem bíblica, que pelas mãos de Scliar ganha duas interpretações: uma masculina e outra feminina.
A história passa pelo antigo costume do levirato, segundo o qual o irmão de um homem morto tem por obrigação dar um filho à viúva. Tamar casou com Er, primogênito de Judá, que atormentado por sua secreta orientação sexual, comete o suicídio sem consumar o casamento. Onan, como prevê a tradição da época no Oriente Médio, deve ocupar o lugar do irmão e, assim, resolver uma questão prática: a viúva não poderia herdar as propriedades do falecido. Apenas seus filhos.
Onan aceita sua condição de marido de Tamar, mas planeja sua própria vingança: ele se propõe a manter relações sexuais com a mulher, por quem nutre uma paixão desde quando era apenas seu cunhado, mas não fecundá-la. A história então ganha nuance de dramalhão, com a descrição de uma relação doentia e tomada por falsas aparências. No final, depois de ver dois maridos morrerem, Tamar, apaixonada pelo caçula da família, com quem não consegue casar, acaba grávida do patriarca Judá.
Ângulos diferentes
Na primeira parte do livro, é o professor Haroldo, um importante representante brasileiro dos estudos bíblicos nos Estados Unidos que, como principal atração do congresso, fala a partir da leitura do Manuscrito de Shelá, encontrado numa caverna de Israel. O livro começa então com um olhar masculino do episódio. Tamar é a vilã – uma mulher cuja beleza parece tomá-la de uma vocação à tragédia.
Na interpretação de Shelá, e também do professor Haroldo, a história de Tamar é contada a partir de tradições que giram em torno de um Deus autoritário e enigmático. “Um Deus homem, não uma deusa como aquela que outros povos da região veneravam, deusas eróticas que inspiravam mulheres a fazer sexo.”
Na segunda parte do livro, e para surpresa dos participantes do congresso, a professora Diana, antiga desafeta do professor Haroldo, toma a palavra e faz sua apresentação livremente adaptada a partir do que seria a visão de Tamar. A passagem bíblica ganha então uma ótica feminina, de uma mulher que antes do casamento sofre do constrangimento de ser feliz e que nutre uma adoração quase religiosa pelo pai, a quem considera “um clone do Senhor”.
O leitor é então convidado a imaginar a passagem do Livro dos Gênesis por um novo ângulo. Não espere, porém, doces de ironia fina nos moldes de Saramago. Scliar é mais discreto em suas interpretações, não chega a mudar a ordem lógica dos acontecimentos, mas acrescenta uma visão no mínimo questionadora da mesma história. Mostra, por exemplo, a contenção como uma exigência imposta ao mundo feminino, e a frustração como um caminho natural às mulheres.

“Manual da Paixão Solitária” (leia um trecho AQUI)

Autor:
Moacyr Scliar
Editora:
Companhia das Letras
Páginas:
215
Preço:
R$ 41

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments