O século 19 foi o das grandes narrativas. Escritores russos se notabilizaram, depois os franceses. Foi o grande século do romance, como dificilmente teremos de novo. Em razão da internet, o século 21 continuará privilegiadamente o século da palavra. Do texto curto, cifrado, de palavras novas, nascidas pelo encurtamento das mensagens. O Twitter pede apenas 140 caracteres, e não se sabe se a pressa é do transmissor ou do receptor. A mensagem precisa ser breve, cheia de nada, pois o importante não é o conteúdo, é a mensagem, como disse Machluan, em 1964. As pessoas tuítam para afirmar a si mesmas que continuam vivas, precisam ser reconhecidas. E tuítam mensagens curiosas, avisando ao mundo que estão com fome, que precisam de alguma coisa ou simplesmente para declarar surtos de carência e solidão.

Em 2010, o romance é arte perdida. Por várias razões: o domínio da palavra é privilégio de quatro ou cinco escritores por geração, capazes de construir uma narrativa que interesse ao público. O resto é lixo, como se pode concluir de qualquer visita a uma livraria. Mesmo assim, o livro continua na ordem do dia, talvez mais discutido do que lido. Os próprios títulos são diagnósticos precisos de que a literatura em nossos dias se mantém como o melhor processo de autoajuda: onde encontrar a sabedoria? O prazer de ler os clássicos, eu, aos pedaços (Cony), as obras-primas que poucos leram, a arte de envelhecer, 50 clássicos que não podem faltar na sua biblioteca, e por aí seguem os títulos disponíveis sobre livros e autores.

Nunca se publicou tanto livro quanto agora. Nunca tivemos tantos escritores como agora. Há quem diga, inclusive, que no Brasil temos mais editoras e escritores do que leitores. Os livros são comercializados aos milhões. Sim, livros são objetos de consumo, e sempre menos lidos. Comprar e levar para a casa é possível, encontrar tempo e cabeça para lê-los é que é difícil. Vivemos na época da pressa, do imediato, do presente contínuo. A leitura pede o contrário disso, o que explica, ainda, como e por que as pessoas reclamam de suas vidas desinteressantes, cheias de tédio e mesmice. Lotadas de televisão anestesiadora de cérebros, como nunca antes se teve neste País.

Aqueles romances crispados de emoção, de profundidade humanística, com personagens solidamente construídos envoltos em tramas bem costuradas, como nos épicos de Tolstoi e Theckov, Balzac e Flaubert, García Márquez e Joseph Conrad, hoje são escassos. Raríssimo encontrar por aí autor consistente e duradouro. O que temos é a superprodução no melhor estilo hollywoodiano, de consumo imediato e descarte automático. Nada de tudo isso é literatura. São narrativas vazias, feitas para esquecer, consumidas por cérebros ocos e mentes de palha. A esquizofrenia da vida moderna, a tecnologia e a informação global estão criando um novo tipo humano, o “homo imbecilatus primarius”, resultado de mutação genética da espécie Sapiens-sapiens.

aternes@terra.com.br

Apolinário Ternes historiador e jornalista

Fonte: A Notícia

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