Professor da Universidade de Cambridge estudioso do assunto diz que é impossível prever se e-books vão destronar formato de papel
O dia 20 de julho pode entrar para a história do livro devido a uma marca curiosa. Naquela data, a gigante livraria on-line Amazon anunciou que as vendas de obras para seu leitor digital Kindle haviam superado a comercialização de livros de papel com capa dura nos três meses anteriores. Logo surgiu a pergunta: isso quer dizer que, a curto, médio ou longo prazo os e-books vão destronar o livro em sua clássica apresentação? Não exatamente, segundo John B. Thompson, professor de sociologia da Universidade de Cambridge, autor de obras como Books in the Digital Age (Livros na era digital, ainda inédito no Brasil) e estudioso há três décadas das transformações impostas pela tecnologia ao mercado editorial e aos costumes dos leitores. “Não acredito que vamos passar por uma simples transição do impresso ao digital. Há diversas publicações em papel que continuam sendo úteis a muitas pessoas”, diz Thompson, que esteve no Brasil nesta semana para participar do Fórum Internacional do Livro Digital, ligado à 21ª Bienal do Livro de São Paulo – que será aberta ao público nesta sexta-feira. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a revolução digital que atinge o livro e desafia qualquer um a prever a morte do formato em papel.
Como o senhor analisa a transformação da indústria dos livros?
Vivemos hoje tempos de turbulência no mundo editorial. Por mais de cinco séculos, os métodos e práticas de publicação de livros se mantiveram praticamente inalterados. Agora, o setor enfrenta talvez seu maior desafio desde Gutenberg. Nas duas últimas décadas, a indústria dos livros tem sido moldada por dois processos principais. De um lado, está a transformação econômica em curso, um processo que ganhou força na década de 60 e se acelerou nos últimos anos, levando em conta a consolidação das editoras e do varejo. Por outro lado, houve profundas mudanças tecnológicas associadas à revolução digital, que varreu toda a indústria desde o final dos anos 70, mas que tem afetado intensamente as chamadas indústrias criativas – como filme, televisão, jornais e editoras.
Como o senhor define a revolução digital?
Sou adepto do termo “revolução digital” para aludir à conversão das informações em códigos digitais que permite armazenar, manipular e transmitir essas informações através de tecnologias de vários tipos. Muitos setores da indústria foram transformados pela revolução digital. O segmento criativo, por exemplo, foi afetado profundamente pelo fato de produzir conteúdos que podem ser codificados em formato digital. Em essência, o que acontece quando você procede a digitalização é a separação entre conteúdo e forma. Com o uso crescente das novas tecnologias, a informação ganha diversos formatos em várias plataformas (móveis, por exemplo): ela ganha versões múltiplas que antes não existiam. Então, no tocante ao e-book, é importante lembrar que uma revolução está ocorrendo na indústria editorial, mas é uma revolução no processo e não uma revolução no produto. Isto é o que eu chamo de “revolução escondida”. Será que você realmente quer comprar uma enciclopédia de vários volumes quando pode obter informações precisas em ambientes virtuais?
Em que ritmo se dará a transição do livro impresso para o eletrônico?
Pergunta complexa. Não acredito que vamos passar por uma simples transição do impresso ao digital. Há diversas publicações em papel que continuam sendo úteis a muitas pessoas. E isso corrobora minhas dúvidas sobre o futuro editorial. Cito um exemplo local: hoje já é possível obter uma licença paga para acessar a versão on-line do Dicionário de Inglês Oxford, mas as vendas físicas não caíram. A obra continua a ter um papel importante e um mercado fiel. As vendas de leitores digitais, como o Kindle, crescem desde 2007 e a tendência é que ele se torne popular em vários cantos do mundo – o que não é visto hoje. Trata-se ainda de uma pequena fração de consumidores. A tendência é que esses dispositivos tenham um preço mais acessível à população em geral, mas ainda é muito cedo para dizer como o padrão de leitura irá mudar nos próximos dois a três anos. Muito menos nos próximos cinco anos. E detalhe: não sabemos como as pessoas irão se acostumar com este novo formato. Teremos muitos indivíduos que vão preferir a leitura tradicional impressa.
Então, não é possível prever a morte do livro impresso?
No momento, não é possível conhecer o que nos aguarda. Existem dois grupos neste terreno que discutem o futuro do livro: os entusiastas e os céticos digitais. Trata-se de visões perfeitamente legítimas e com bons argumentos. Mas ressalto: nenhuma me convence sobre o que nos espera nos próximos anos. Os entusiastas acreditam que os dias do tradicional livro estão contados. Usam como argumento o crescimento vertiginoso de e-books. Para este nicho, as obras físicas serão alvo de colecionadores, como os antigos LPs de vinil. Por outro lado, os céticos acreditam que o impresso tem certas qualidades, que são valorizadas por seus leitores, atributo que um e-book não poderá capturar ou reproduzir. Segundo esse grupo, as obras físicas são esteticamente agradáveis de segurar e de leitura extremamente amigável – sem a necessidade da existência de uma tela, sem baterias e com a garantia que você não precisará reiniciar o dispositivo, caso dê algum problema. E, ah, o livro em papel não quebra. Além disso, um livro é mais do que uma peça de tecnologia para a leitura: é um objeto social, que pode ser compartilhado com os outros, emprestado e devolvido, exibido em uma prateleira. Nada disso, dizem os céticos, é possível com o e-book. Ele é puro conteúdo e nunca pode capturar ou reproduzir a materialidade do livro físico. Estamos no meio de uma mudança turbulenta na indústria editorial e ninguém sabe como isso vai se desenvolver nos próximos anos. Quem diz que sabe está enganado. Ainda faltam argumentos plausíveis.
Como as livrarias sobreviveriam, se um dia todas as obras pudessem ser adquiridas pela internet?
As livrarias de tijolo e argamassa propriamente ditas sofrem pressões intensas já há algum tempo. E quanto mais conteúdos de obras impressas forem distribuídos de forma eletrônica, novos questionamentos sobre seu futuro irão surgir. Eu não vejo qualquer perspectiva real para livrarias pequenas, por exemplo. Não há chance de elas realizarem uma estratégia semelhante à Amazon e distribuir o seu próprio e-book. Elas irão trabalhar em conjunto com grandes marcas do setor – e isso não significa o seu desaparecimento. Pelo contrário: dará uma nova perspectiva de geração de receitas. E não podemos esquecer o público conservador, que gosta de avaliar e experimentar obras antes de adquiri-las, procurá-las nas livrarias e conversar com o vendedor de livros sobre as publicações mais recentes.
Fonte: Veja

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