Sao Paulo – Embora o encerramento só aconteça no domingo, o sentimento de saudade já chegou à 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Essa palavra que só existe na língua portuguesa surgiu na noite da última quarta-feira por associação ao nome de um dos mais importantes colaboradores para a divulgação desse idioma no mundo: José Saramago. Falecido no dia 18 de junho, o escritor português foi lembrado num tributo que reuniu seu biógrafo José Marques Lopes, seu editor no Brasil, Luiz Schwarcz, e o cineasta Miguel Gonçalves Mendes, responsável pelo documentário José e Pilar, com estreia prevista no país para novembro.

Em comum, os três guardam memórias afetivas, detalhes da carreira e da personalidade do Prêmio Nobel de 1998. A conversa, comandada pelo jornalista Manuel da Costa Pinto, começou depois da exibição de dois trailers do filme José e Pilar, fruto de quatro anos de um trabalho que mostra o cotidiano do casal Saramago e sua esposa Pilar del Rio. “Ele sempre foi retratado na mídia como uma pessoa antipática e ranzinza, então tive vontade de mostrar a intimidade dele”, explicou o Mendes.

A partir desse convívio mais próximo com o autor de Ensaio sobre a cegueira, os três debatedores puderam esclarecer algumas dúvidas que envolviam Saramago. Um delas foi em relação à suposta rivalidade entre ele e o também escritor português António Lobo Antunes. “Acho que não existia rivalidade, mas também acho que não havia simpatia entre os dois”, opinou o cineasta.

Outra polêmica levantada foi o problema dele com o governo de Portugal. “A questão é que O evangelho segundo Jesus Cristo havia sido indicado por uma comissão para concorrer a um prêmio europeu, mas o ministro vetou. O que deixou Saramago muito irritado e o fez rumar para Lazanrote (ilha espanhola, onde passou a viver o escritor português)”, disse o biógrafo.

Mesmo com a lembrança de tantos assuntos espinhosos, até como reflexo ao espírito combativo da obra de Saramago, o que prevaleceu foi mesmo o exemplo deixado pelo escritor português. “A vida de José foi marcada pelo desafio ao tempo, o maior inimigo dele não era o capitalismo, mas o tempo”, disse Schwarcz, revelando que, logo após o autor terminar Caim, ele iniciara outro livro. “A Pilar disse que ele morreu sem saber que estava morrendo. Mas no fundo ele tinha consciência que não ia conseguir mudar o mundo”, completou o editor.

No entanto, apesar da sua ausência, resta o consolo de que obra de Saramago permanece e, em breve, os leitores brasileiros terão acesso a novos textos referentes ao escritor no Brasil. Para setembro, a Companhia das Letras lança o livro As palavras de Saramago, uma seleção feita por Fernando Gómez Aguilera de artigos e declarações do autor extraídas de entrevistas, jornais e livros. A editora ainda analisa a possibilidade de editar Terra do pecado, o primeiro romance publicado pelo escritor português, mas ainda inédito no Brasil.

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