Geoffrey A. Fowler e Marie C. Baca
The Wall Street Journal

Muitas pessoas que compram livros eletrônicos passam a dedicar mais tempo à leitura, mostram as primeiras pesquisas sobre o assunto, num sinal encorajador para o mercado de livros.

Num estudo com 1.200 donos de leitores de livros eletrônicos nos Estados Unidos, realizado pela Marketing and Research Resources Inc., 40% disseram que passaram a ler mais do que com livros impressos. E 55% dos entrevistados pelo estudo, realizado em maio e financiado pela Sony Corp., que fabrica aparelhos do tipo, acharam que vão usar o aparelho para ler ainda mais livros futuramente. O estudo analisou donos de três aparelhos: o Kindle, da Amazon Inc., o iPad, da Apple Inc., e o Sony Reader.

Joe Schram for The Wall Street JournaliPad de Apple Inc.

Embora os leitores eletrônicos ainda sejam um produto de nicho que só começou a se espalhar para além dos primeiros usuários, essa nova experiência é uma grande mudança de direção nos hábitos de leitura, pelo menos nos EUA. Um estudo do Fundo Nacional de Artes em 2007 causou polêmica quando sugeriu que os americanos estavam passando cada vez menos tempo lendo. Quase metade dos americanos de 18 a 24 anos não lê por prazer, afirmou o estudo.

Cerca de 11 milhões de americanos terão pelo menos um leitor de livro eletrônico até o fim de setembro, calcula a Forrester Research. As vendas de livros eletrônicos nos EUA cresceram 183% no primeiro semestre do ano ante o mesmo período de 2009, segundo a Associação de Editores Americanos.

Pelo menos entre os primeiros a adotá-los, os livros eletrônicos não estão apenas substituindo os antigos hábitos de leitura, mas complementando-os. A Amazon, a varejista on-line que é a maior vendedora de livros eletrônicos, afirma que seus clientes, após comprar um Kindle, adquirem 3,3 vezes mais livros dela — um número que acelerou no último ano à medida que o preço do aparelho baixava.

Ainda é muito cedo para saber se o aumento do índice de leitura vai se sustentar depois que a novidade passar e os aparelhos se tornarem mais disseminados. Mas nas casas, nas salas de espera dos médicos, nas esteiras de ginástica, nos trens e ônibus, os livros eletrônicos começaram a se tornar quase tão comuns quanto os BlackBerrys.

Desde que comprou seu Kindle, ano passado, Leslie Johnson tem lido mais e em mais lugares — como num caiaque. Numa viagem recente, ela devorou um livro de ficção científica enquanto o marido pescava. “Coloquei uma capa à prova d’água”, diz a engenheira de 34 anos, que mora em Albany, no Estado de Nova York.

O escritor de mistério e suspense Michael Connelly diz que deve ter uns 30 livros eletrônicos em seus Kindle, Sony Reader e iPad embora ainda leia livros impressos porque recebe muitas amostras de livros de sua editora.

“Nunca vou parar de amar o livro impresso”, diz ele. Mas acrescenta: “Estou muito interessado nesse mundo. Os e-books chegaram para ficar.” E complementa: “Existe a vantagem de poder carregar várias coisas. Viajo muito — acredite, eu percebo o peso.”

Os primeiros livros eletrônicos apareceram nos anos 90 e não atraíram o interesse das pessoas, que tinham de ler as obras no computador ou na telinha do celular.

Jakob Nielsen, um pesquisador do Vale do Silício que estuda há mais de 20 anos como as pessoas interagem com a tecnologia, chamou recentemente 32 voluntários e lhes pediu que lessem contos de Ernest Hemingway impressos, num iPad e num Kindle. Aí Nielsen cronometrou quanto tempo demorou para eles lerem um conto em cada aparelho. Comparando com livros tradicionais, os leitores do iPad demoraram 6,2% mais e os do Kindle, 10,7%, embora a diferença entre os resultados do iPad e do Kindle não tenha sido estatisticamente significativa. Nielsen suspeita que a lentidão é causada pela tecnologia na tela dos aparelhos, cuja resolução ainda é menor que a do papel impresso.

“Os dois aparelhos lhe dão uma sensação de relaxamento, diferente do computador, que lembra a sensação do chefe vigiando você pelas costas”, disse Nielsen, que comanda a firma de pesquisa Nielsen Norman Group com o ex-pesquisador da Apple Donald Norman.

Ao criar o Kindle, Jeff Bezos, diretor-presidente da Amazon, disse que pretendia desenvolver uma tecnologia que incentivasse leituras longas, em vez de pequenos trechos.

“O grande objetivo é minimizar o aparelho para que você possa entrar no mundo do autor”, disse ele numa entrevista recente ao Wall Street Journal. “Seria um pesadelo para mim se esse aparelho fizesse um bip quando eu estivesse lendo.”

Os livros eletrônicos também parecem estar diminuindo a diferença entre o índice de leitura de homens e o de mulheres. Um estudo publicado em março pela Book Industry Study Group Inc. descobriu que os homens consomem mais livros eletrônicos que as mulheres, por uma pequena margem — 52% contra 48% —, numa inversão do índice nos livros impressos, em que as mulheres compram mais.

Pessoas que usam e-books também dizem que 52% de seus livros eletrônicos foram edições que eles compraram, enquanto 48% eram amostras grátis ou versões de domínio público.

As bibliotecas americanas estão expandindo os serviços que permitem às pessoas “retirar” virtualmente um livro pela internet, com arquivos que travam automaticamente quando termina o prazo do empréstimo. Segundo a Associação Americana de Bibliotecas, apenas 38% delas ofereciam serviços de empréstimo de livros em 2005, mas ano passado o número cresceu para 66%.

O livro eletrônico de ficção mais solicitado é “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, de Stieg Larsson, segundo a Overdrive, uma empresa que empresta livros digitais para mais de 11.000 bibliotecas. O mesmo acontece na Amazon, o maior site de e-books, onde Larsson também encabeça as listas de mais vendidos nesse meio.

Existem alguns aspectos da experiência com um livro impresso que os livros eletrônicos ainda não conseguiram recriar. Travas digitais nos livros eletrônicos impedem que se empreste a obra para um amigo, embora os títulos gratuitos sejam compartilhados mais rapidamente do que nunca pela internet. O Scribd.com, um site em que é possível publicar e ler livros digitais, compartilha livros e documentos 10 milhões de vezes por mês, afirma a empresa que o opera.

Números de páginas também são um problema para os livros eletrônicos, já que o número de palavras na “folha” depende do tamanho da tela e da fonte. As páginas podem ser antiquadas, mas são muito úteis para garantir que os participantes de um clube de leitura ou estudantes saibam qual página está sendo discutida. Para o leitor individual, a ausência de número nas páginas implica que não há como pular até o fim do livro. A maioria dos livros eletrônicos tenta substituir o número da página mostrando a porcentagem do livro que já foi lida.

A tecnologia trouxe um leque de funções para os livros eletrônicos que seriam impossíveis nos impressos. A escritora de livros infantis Lynley Dodd vende um título de sua série “Hairy Maclary” como um app para o iPad. O aplicativo permite que pais ou crianças gravem a si mesmos lendo o livro em voz alta, e uma função de colorir deixa as crianças pintar os desenhos originais.

Com um leitor eletrônico, dá para segurar o livro e mudar as páginas com uma mão. Alguns leitores elogiam a maneira como a fonte pode aumentar com poucos cliques — e dá para ler na cama aparelhos com iluminação própria, como o iPad, mesmo quando as luzes estiverem apagadas.

Os capítulos gratuitos de livros eletrônicos, comuns na maioria das lojas on-line, facilitam experimentar a obra.

Mas o papel tem um benefício que os eletrônicos não têm: não precisa ser desligado durante a decolagem e a aterrissagem do avião. Numa viagem recente a Seattle, Jamie McKenzie, um escritor de 64 anos de Bellingham, no Estado americano de Washington, disse que se sentiu superior quando pediram que o homem do assento ao lado desligasse seu Kindle para a decolagem. “O cara pode ter acesso a 10.000 livros, mas eu é que consegui continuar lendo.”, disse ele.

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