Uma biblioteca pode ter dez ou mil livros, até mais. Pode ser do tamanho do mundo. Ou revelar a dimensão da curiosidade de seu proprietário. Livros, livros, livros. Há quem acumule. Outros precisam ter obras diante do campo de visão. Para, mais que ler, reencontrar ideias, enredos, experiências sensoriais que somente a leitura proporciona.

O casal Peggy e Rogerio Distefano divide a existência há 36 anos. Nessa temporada, são mais de três mil livros (em comum) espalhados por cinco cômodos. Ele, 60 anos, é procurador do Estado e comprou o primeiro livro quando tinha 14 anos. Atualmente, investe R$ 400 todo mês em livros, sobretudo de História e Sociologia. A sua dieta de leitura tem duração mínima de quatro horas nos dias úteis. As leituras não são regulares, interrompidas, nos fins de semana. Peggy, tradutora profissional, não tem a mesma voracidade que o marido. Já leu muita poesia. Ganhou um livro do poeta Keats, uma relíquia, diretamente das mãos de outro poeta, o seu amigo Paulo Leminski. Uma biblioteca pode ser um elemento que une duas vidas – Peggy e Rogério que o digam.

Uma biblioteca pode ser um legado, um exemplo e uma maneira de estar e enfrentar a vida. O advogado Renato Kanayama, 59 anos, tem 40 mil livros. Todo esse acervo teve início com o seu pai, o também advogado Kiyossi Kanayama (1916-2005). São necessárias quatro residências para armazenar essas obras. “Na internet há informações. O conhecimento está nos livros.” A frase revela a opção existencial de Kanayama. Não troca os livros por nada. Em sua viagens, pelo Brasil e pelo mundo, visitar livrarias é programa obrigatório. Os livros o acompanham na praia, na casa, na fazenda. “É o melhor lazer”, afirma Kanayama.

José Monir Nasser, 52 anos, nasceu em uma casa onde livros faziam parte do cotidiano, talvez até mais do que bola, jogo de botão e figurinhas. O atual presidente da Aliança Francesa de Curitiba talvez não pudesse prever, mas o seu futuro estaria diretamente ligado a esse incrível objeto que resiste a quase tudo para combater traças e fungos, ele usa um sachê de cravo, cânfora e citronela. Há alguns anos, está à frente do projeto Expedições pelo Mundo da Cultura, que tem apoio do Sesi-PR – Serviço Social da Indústria, e reúne pessoas para discutir clássicos da literatura mundial. “É preciso ler dez livros para começar a entender uma obra”, teoriza. Todo mês, ele lê pelo menos uma dúzia de livros de sua biblioteca, hoje com três mil títulos – em contínua desorganização, como é toda biblioteca viva.

Vera Vidal, a exemplo de Nasser, e de muitos outros leitores, começou a ler ainda criança. Aos 9 anos, era a “proprietária” de uma das prateleiras da estante de sua mãe. Hoje, décadas depois, é a “dona” de várias prateleiras, que ocupam uma parede do piso superior da cobertura onde vive. De uma coleção de Eça de Queiroz a best sellers, incluindo Dewey, um Gato entre Livros, tem amplo repertório. Por falar em gato, o felino Stefan é companheiro em suas aventuras entre uma página e outra. Para Vera, e para muita gente, biblioteca não se resume a reunião de livros. Fotos, cadernos, álbuns e outros objetos também cabem na estante. Um papel envelhecido, e Vera lembra que já leu Virgílio, declamou Castro Alves e, um dia, foi bailarina. Uma biblioteca também pode ser uma “máquina do tempo”.

dica do Chicco Sal (via Gazeta do Povo)

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