A. P. Quartim de Moraes – O Estado de S.Paulo
As listas de livros de ficção mais vendidos no Brasil revelam claramente que a indústria editorial brasileira, no segmento sintomaticamente denominado trade (livros de interesse geral comercializados no varejo), está totalmente atrelada à norte-americana. Muito especialmente na ficção, o livro que não passa, primeiro, pelos best-sellers do jornal The New York Times tem escassas possibilidades de entusiasmar as nossas casas publicadoras. Esse desinteresse – fenômeno de natureza originariamente comercial, fruto também da globalização da economia – condena ao estiolamento a literatura brasileira. Não tem como evoluir uma literatura que não é publicada.

No ranking semanal de ficção divulgado no suplemento Sabático deste jornal em 28 de agosto, dos oito autores dos dez, digamos, romances mais procurados nas livrarias, cinco são americanos (Rick Riordan e Nicholas Sparks, com dois títulos cada, e ainda P. C. Cast, Dan Brown e Lauren Kate). Os outros três são a chilena Isabel Allende e o canadense William P. Young, não por coincidência, ambos radicados nos Estados Unidos, e, last but not least, um brasileiro, o novato Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse: da Queda dos Anjos ao Crepúsculo do Mundo. A lista da revista semanal Veja é semelhante, à exceção da substituição de Lauren Kate por Paulo Coelho. Questão de critério, já que, na relação do Sabático, O Aleph figura entre as obras não ficcionais. Mas também não faz a menor diferença…

Para publicar um best-seller da lista do New York Times uma editora brasileira precisa investir pesado. Os direitos de publicação dessas obras são geralmente adquiridos em leilões cujos lances costumam superar os US$ 100 mil. E ainda há o custo da tradução, mais o da impressão de uma tiragem inicial de, no mínimo, 15 mil ou 20 mil exemplares necessários para atingir o ponto de equilíbrio. Soma-se a isso o dinheiro gasto na divulgação midiática e comercial. Quando dá certo, é uma beleza! Mas a experiência de prejuízos acumulados com advances não recuperados demonstra dramaticamente que o oráculo supremo das nossas casas publicadoras – as listas do New York Times ou da Amazon – está longe de garantir sucesso de vendas no Brasil.

O negócio do livro nunca foi, em época alguma, em nenhuma parte, campeão de lucros. Mas sempre cumpriu de alguma maneira sua função civilizadora. No entanto, desde que meia dúzia de grandes corporações multinacionais passou a dominar, nos últimos 30 anos, o negócio da comunicação no planeta, absorvendo nos conglomerados as mais importantes editoras europeias e norte-americanas, os conteúdos literários passaram a ser nivelados por baixo, partindo do princípio tolo de que para aumentar o número de consumidores de livros é necessário publicar obras “ao alcance” da maioria.

Bem, esse é o mundo em que vivemos, e ninguém está querendo defender a elitização dos conteúdos literários, a produção exclusiva de biscoito fino para um público selecionado. Cada vez mais, aqui e em todo o mundo, essa é uma tarefa que tem recaído sobre os ombros das pequenas editoras independentes, das casas publicadoras universitárias, daquelas mantidas por instituições públicas ou privadas sem fins lucrativos.

Mas, quando nos deparamos com a presença dominante e quase exclusiva de autores estrangeiros nas listas de romances mais vendidos no País, somos levados a uma de duas conclusões: o nosso big business editorial está negligenciando os autores nacionais ou estes estão desaparecendo/trabalhando mal. Pode-se descartar a segunda hipótese sem medo de errar. Qualquer editor conhece muito bem a enorme quantidade, e a qualidade que daí se pode extrair, de originais oferecidos por miríades de autores inéditos e também, em número igualmente surpreendente, por excelentes escritores que encontram as portas fechadas para seus novos livros apenas porque ainda não conseguiram produzir um best-seller.

Há editores e livreiros que alegam, como que se desculpando, que “o nosso leitor realmente não gosta de histórias brasileiras”. Não fica muito claro, mas esse argumento parece significar que o consumidor de livros no Brasil constitui uma elite intelectual que, como tal, tem um gosto apurado demais para o “produto nacional”. Daí a tendência natural de oferecer ao distinto público o “produto importado”. Muito chique. Mas alguém explique, por favor: a ficção que frequenta as listas do New York Times é, no geral, de feitio a agradar a alguém de “gosto apurado”? É melhor admitir logo que o que importa mesmo é a grana.

A verdade é que literatura brasileira vende pouco porque as grandes editoras, que ditam os rumos do mercado, não estão dispostas hoje, salvo as honrosas as exceções de praxe – e, mesmo assim, vamos com calma! -, a botar dinheiro nela. Ninguém parece atentar para o fato de que conteúdos genuinamente brasileiros vendem, e muito bem, no mundo inteiro, quando se trata de teledramaturgia, porque as nossas emissoras de televisão há 50 anos investem pesado nas novelas e acabaram criando um padrão internacional de excelência.

No mundo do livro, também se investe muito, em caríssimos títulos estrangeiros – grande parte, apenas lixo – que chegam comercialmente credenciados apenas por altos índices de vendas lá fora. Então, se o segredo é o dinheiro, por que não botá-lo com a mesma generosidade na criação literária brasileira? E apoiar a produção literária nacional não significa apenas editar eventualmente uma obra com tiragem de 2 mil exemplares e abandoná-la à própria sorte.

Os publishers brasileiros precisam olhar para o futuro e pensar também na responsabilidade social e cultural que o seu negócio implica.

Jornalista, é editor associado da Global Editoral

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