Eric Metaxas (foto), autor do estudo sobre o teólogo Dietrich Bonhoefferintitulado “Bonhoeffer: Pastor, Martyr, Prophet, Spy” [Bonhoeffer: Pastor, mártir, profeta, espião], estabelece um novo padrão para a biografia popular. Uma obra muito bem-escrita e fascinante. E grande o suficiente para isolar as paredes da sua casa.

A reportagem é de Jana Riess, publicada no sítio Beliefnet. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eric, quando a editora Thomas Nelson me enviou seu livro, eu pensei que devia haver dois ou três livros no pacote, por ser tão grosso. Então, eu o abri e encontrei um único volume imenso. Quanto tempo demorou para pesquisar e escrever essa biografia?

Sim, é um livro grande, muito mais longo do que aquele que eu pensei em escrever. Mas estou extremamente feliz por saber que diversas pessoas disseram ter ficado inicialmente assustadas com o seu tamanho, mas assim que começaram a lê-lo simplesmente não conseguiam parar. A revista Publishers Weekly até chamou-o de “fascinante”! É de extremo mau gosto o fato de um autor citar suas próprias críticas, mas, quando você escreve um livro longo, o fato de que muitas pessoas estejam realmente gostando dele significa muita coisa. A grande biografia anterior, de Eberhard Bethge, na verdade é o dobro maior e pesa dois quilos e meio. Então, comparado a esse, meu livro é um livro de bolso… Eu quis que o meu livro fosse definitivo, mas também acessível, e espero ter tido êxito em ambas as coisas.

Eu o escrevi durante o período de esforço mais concentrado que já fiz na minha vida. Foi como se eu estivesse correndo uma maratona e rezando para que Deus me desse a força para não desfalecer. Ele fez isso, então eu não desfaleci.

Por que você quis escrever a história de vida de Dietrich Bonhoeffer, a primeira grande biografia do teólogo a ser publicada em 40 anos? Como a vida dele fala para você?

A primeira vez que eu ouvi a história de Bonhoeffer foi em 1988, e eu fiquei simplesmente pasmo. A ideia de que um cristão devoto naAlemanha se levantava contra Hitler e se envolvevia na conspiração para matar Hitler e era morto em um campo de concentração era simplesmente fantástica. Minha mãe cresceu na Alemanha durante aqueles anos terríveis, e meu avô foi morto na guerra (eu dedico o livro a ele), de modo que esse período da história sempre me assustou. Ainda assim, eu nunca pensei que iria escrever uma biografia de Bonhoeffer. Mas depois do sucesso de “Amazing Grace”, minha biografia deWilberforce [político e filantropo britânico do século XVIII], todos me perguntavam sobre quem eu ia escrever em seguida. Há apenas uma pessoa cuja vida me cativa tanto como a vida de Wilberforce, e esse homem é Dietrich Bonhoeffer. Ele é a pessoa mais autêntica que eu já encontrei, e eu sei que a sua vida fala poderosamente a nós de inúmeras maneiras. Ele é como o herói supremo, e sua história é tão inspiradora que eu tinha que contá-la a uma nova geração de leitores.

Uma das coisas mais interessantes sobre a sua biografia é que você se aproveitou de cartas e diários que nunca haviam sido publicados antes. O que isso acrescentou à história que você está contando?

Há uma série extraordinária de 16 volumes sobre as obras deBonhoeffer publicada pela editora Augsburg Fortress Press. Ela contém todas as cartas e anotações de diários e todas as outras coisas que ele escreveu, e a maior parte dos volumes foram traduzidos para o inglês, então eu tinha acesso a tudo. É um tesouro absoluto, e, como eu estava lendo tudo isso, encontrei coisas que eram especialmente interessantes, engraçadas, divertidas ou reveladoras, e eu pensei: “Eu tenho que pôr isso no livro”. Por isso, há uma grande variedade de coisas no meu livro, incluindo algumas das poesias de Bonhoeffer.

Eu acho que, por meio da leitura de suas cartas a amigos e familiares e das anotações em seu diário, você obtém uma visão muito diferente da que você tem dele lendo apenas seus livros de teologia. Ela o humaniza muito e mostra que tipo de pessoa ele era. Ele surge como alguém acessível e encantador e gracioso, o tipo de pessoa com quem qualquer um adoraria passar o tempo. Esse é um retrato um pouco diferente do que alguém poderia ter dele apenas lendo seus livros.

Seu subtítulo sugere que você analisa quatro aspectos diferentes do homem Bonhoeffer: pastor, mártir, profeta e espião. Os cristãos provavelmente estão acostumados com os três primeiros. Mas o que a maioria das pessoas sabe sobre Bonhoeffer como espião da Resistência?

Em 1939, depois que Hitler declarou guerra contra a Polônia, e depois que Bonhoeffer retornou de sua fatídica e abreviada viagem para osEUA, ele perguntava a Deus o que fazer em seguida. E o que ele acabou fazendo foi trabalhar para a inteligência militar alemã – a chamada Abwehr – sob a supervisão de seu cunhado, Hans vonDohnanyi. Mas, é claro, Dohnanyi e muitos outros na Abwehr estavam envolvidos na conspiração contra Hitler. É por isso que Bonhoeffer se juntou a eles! Então, ele se tornou um agente duplo. Na superfície, ele estava trabalhando para a Abwehr, mas, na realidade, estava trabalhando para fazer contatos com os aliados, para que eles soubessem que havia alemães dentro da Alemanha que estavam trabalhando para derrubar o Terceiro Reich. Isso é simplesmente impressionante.

Seu livro também investiga a história de amor entre Bonhoeffer e sua noiva muito mais jovem, Maria von Wedemeyer. Eles surgem no livro como pessoas muito diferentes. Como eles vieram a se apaixonar?

Eu não quero estragar a surpresa, porque essa é uma das melhores partes do livro, mas a linha de fundo é que isso aconteceu de forma totalmente inesperada. Bonhoeffer estava visitando a avó de Maria, que era uma amiga muito querida dele, e Maria apareceu por ali, e eles passaram a noite conversando. Bonhoeffer ficou tão surpreso com relação a seus sentimentos quanto todos os demais. Ele tinha certeza nesse ponto de sua vida que nunca iria se casar.

Essa é uma biografia que revela tudo, um retrato equilibrado de um grande homem que estava sob um terrível stress em uma guerra injusta. Quais foram algumas das falhas de Bonhoeffer e como elas se manifestaram durante a sua vida?

Bonhoeffer era extremamente brilhante e auto-disciplinado, por isso ele era às vezes muito crítico e exigente e podia perder a sua paciência com as pessoas. Ele escreve a respeito disso em uma carta à sua melhor amiga, Bethge, desculpando-se por isso. Algumas pessoas também pensam nele como alguém reservado, que mantinha um pouco de distância entre si e os outros. Ele era um indivíduo extremamente complexo, mas parece ter sido extremamente ciente e consciente de seus defeitos e sempre tentou corrigi-los. Eu suponho que se alguém estiver desesperado para encontrar uma minhoca na maçã sempre pode citar o fato de ele ter sido fumante.

Bonhoeffer tem desfrutado um grande aumento de popularidade recentemente. Por que você acha que seus escritos são tão atrativos para as pessoas hoje?

Há algo em Bonhoeffer que parece ser extremamente moderno, como se toda a sua vida e seus escritos tivessem sido escritos para nós, hoje. Ele morreu jovem, então ele sempre será jovem e sempre manterá um certo frescor e apelo aos jovens. Mas há algo sobre a sua autenticidade extraordinária que nos fala especialmente hoje com força particular. Ele analisou diretamente a religião morta e passou sua vida adulta inteira tentando mostrar a diferença entre a religião morta e uma fé real e pessoal em Jesus Cristo. Sua relutância em tolerar linguagens técnicas, slogans e sofismas teológicos ou filosóficos parece ser particularmente atraente para nós hoje, que já tivemos o suficiente disso e que ansiamos por alguém para nos dês uma alternativa a isso.

Depois de sua biografia de Bonhoeffer e de William Wilberforce, qual será seu próximo passo? Você tem outros livros futuros planejados?

Não tenho certeza do que exatamente o vou escrever em seguida. Mas uma coisa eu sei: vai ser muito, muito curto.

Fonte: Instituto Humanitas

dica da Roseli K

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