Na América Latina e Europa, escritores usam os cartéis de droga como tema de suas obras, já consideradas um gênero à parte

Adriana Prado, Isto É

ESTOURO
Nos últimos 12 meses, 15 livros retratam o tráfico: oportunismo?

Sinaloa é um Estado no Noroeste do México – e é também sede do quartel-general de um dos mais perigosos cartéis de drogas do país. É justamente por isso que Sinaloa se tornou o cenário do romance “Balas de Plata”, do mexicano Élmer Mendoza, precursor da chamada “narcoliteratura” – onda editorial que não para de crescer no México e em outros países como, por exemplo, Colômbia, Rússia, França e Itália. Ela é particularmente forte, no entanto, no mercado literário mexicano, país onde o narcotráfico matou cerca de 28 mil pessoas desde 2006. Só no ano passado, pelo menos 15 romances com essa temática chegaram às livrarias.

O interesse é motivo de discussão. Se os traficantes, que faturam anualmente até US$ 40 bilhões (aproximadamente R$ 70 bilhões), arrasaram o país, por que falar tanto deles nos livros? Seria uma tentativa de compreender o problema ou só a exploração comercial de um assunto que desperta a curiosidade da população acuada? Entre os autores estão Fernando Vallejo, Martín Solares, Yuri Herrera, Jorge Fernández Menéndez e Luis Humberto Crosthwaite. Até Carlos Fuentes se rendeu ao tema com o romance “Adán en Éden”, inédito no Brasil. “A lista aumenta em sintonia com o avanço da morte e da corrupção pelo continente”, escreveu o recém-falecido escritor argentino Tomás Eloy Martínez em artigo no jornal americano “The New York Times”. Recentemente, 72 imigrantes, entre eles um brasileiro, foram mortos em chacina pela quadrilha Los Zetas, na fronteira com os EUA.

“De um dia para o outro, todos os elementos de um thriller angustiante e excêntrico chegam à mesa dos escritores”, resume o mexicano Jorge Volpi, autor de “El Insomnio de Bolívar”, ensaio sobre passado, presente e futuro da América Latina. Por refletirem a realidade, as obras não fazem juízo de valor – ou seja, não transformam bandidos em estrelas (de livros, filmes ou novelas), como alguns críticos acusam. A adaptação para a tevê de “Sin Tetas no Hay Paraíso”, romance do colombiano Gustavo Bolívar, é um sucesso da emissora Televisa. Trata-se da história de uma jovem de 17 anos que se prostitui para colocar implantes nos seios e, assim, conquistar membros dos cartéis. Baseia-se em fatos reais.

Em razão desse lado documental, essas narrativas não acrescentam muito ao que se lê em jornais e revistas e, agora, as críticas fazem todo sentido. “Em vez de se preocuparem com o que há de errado nas novas democracias, escritores latino-americanos e também europeus preferem se ocupar com os inimigos do sistema”, afirma Volpi. Por conta desse fenômeno, já se fala da “narcoliteratura” como a nova “cara” da produção latino-americana – em oposição ao “realismo fantástico” lançado pelo colombiano Gabriel García Márquez em décadas passadas. Como se num continente inteiro só se produzisse um tipo de obra.

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