Autora escreveu 66 romances policiais ao longo da vida

Escritora mais lida de todos os tempos tem fãs fiéis espalhados mundo afora

Maristela Scheuer Deves, Zero Hora

Rainha do Crime, Dama do Império Britânico, ou, simplesmente, a escritora mais lida de todos os tempos. Epítetos não faltam quando o assunto é Agatha Mary Christie, a inglesa que criou personagens memoráveis como o detetive belga Hercule Poirot e a solteirona Miss Marple e vendeu 2 bilhões de livros ao redor do mundo marca superada apenas pela Bíblia e pelas obras de William Shakespeare. Na próxima quarta-feira, dia 15, comemoram-se os 120 anos do nascimento da autora, que, mesmo passados 34 anos de sua morte, segue como uma das mais publicadas e lidas do planeta.

— A Agatha é uma excelente contadora de histórias, inclusive da vida real. Embora não descreva muito a cena do crime, como outros autores policiais, ela é muito cinematográfica, porque faz uma descrição muito boa dos cenários e da sua época — sintetiza a bibliotecária Maria Nair Sodré Monteiro da Cruz, que atua há cerca de 20 anos na Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer, em Caxias do Sul.

Fã e estudiosa de Agatha Christie, Maria Nair destaca essa reconstrução da realidade como o ponto forte da autora, que escreveu 66 romances policiais, mais de 150 contos desse mesmo gênero, 20 peças de teatro e seis romances sob um pseudônimo, Mary Westmacott.

— A época em que ela viveu foi muito interessante, e é curioso ver como ela coloca isso nas suas histórias — diz, citando como exemplo as duas grandes guerras, o seu período como enfermeira voluntária, os refugiados e as enormes casas da época.

Outras características dos romances policiais da escritora que cativam seus leitores são que a prosa flui com facilidade, os personagens são factíveis, há muitos diálogos, não há cenas longas de interrogatório e as explicações científicas são sucintas, como lista seu curador literário, John Curran, no livro Os Diários Secretos de Agatha Christie, lançado recentemente pela editora LeYa.
Curran acrescenta que as soluções apresentadas pelos personagens de Agatha giram em torno de informações cotidianas, que são mostradas ao leitor de forma que ele próprio não perceba que as pistas estavam bem na sua frente. Quanto a esse detalhe, Maria Nair também rebate aqueles para quem algumas soluções dos mistérios apresentados nos livros da autora parecem surgir do nada:

— Ela inclusive fazia parte de um clube de escritores (o Clube da Investigação, de romancistas policiais clássicos) que tinha regras rígidas, como a de que o leitor tivesse acesso às mesmas pistas do detetive — salienta.

A questão é que esses sinais estão tão bem camuflados, ou apontam em direções tão distintas — as chamadas red herrings, ou pistas falsas —, que o leitor acaba se confundindo. Para quem não quer ser pego desprevenido, vale uma dica: num bom romance policial, tudo tem um motivo para estar ali. Isso vale, por exemplo, para a garrafa de cerveja em Treze à Mesa ou para o cavalo de brinquedo Matilde, em Portal do Destino. Por isso, prestar atenção a todos os detalhes é essencial.

Leitores fisgados

Após ler os 73 cadernos de anotações de Agatha Christie, John Curran concluiu que ela planejava meticulosamente suas histórias. Talvez isso sirva para explicar outro fator que permeia sua obra: a legibilidade. “Isso (a legibilidade) é a capacidade de fazer com que os leitores continuem a ler um livro do começo ao fim; e depois fazê-los ler todos os outros que escreveu. (…) Para Agatha Christie, esse dom era inato”, escreve Curran.

A bibliotecária Maria Nair não ficou imune a esse “dom” da autora inglesa. Seu primeiro contato com o gênero policial, conta, havia sido nas aulas de inglês, quando leu o conto O Barril de Amontilado, de Edgar Allan Poe. Depois passou anos sem ler algo do gênero, até que, em 1976 – o mesmo ano da morte de Agatha –, a então estudante de Psicologia foi a um casamento em Palmares, interior de seu estado natal, Pernambuco.

— O casamento precisou ser adiado porque a grinalda e o buquê da noiva haviam ficado em Recife. Eu estava na casa de minha tia enquanto aguardava, e resolvi ler um livro da estante dela. Era O Homem do Terno Marrom, de Agatha Christie. Quando o casamento começou, eu não queria parar de ler — relembra.

A partir de então, tornou-se leitora assídua da Rainha do Crime. Seus pais e seu ex-marido, sabendo de seu gosto pelas obras, presenteavam-na com novos títulos, e outros foram sendo comprados. Hoje, Maria Nair tem todas as obras da autora, inclusive as não policiais, publicadas sob o pseudônimo de Mary Westmacott, sua autobiografia e outros livros sobre ela — além de fitas de vídeo com um seriado de TV que tinha Poirot como protagonista.

Seus livros preferidos, conta, são aqueles que mostram a própria escritora, como Autobiografia e Desencavando o Passado, este último sobre as escavações arqueológicas das quais Agatha participou com o segundo marido, Max Mallowan. A partir deles, acrescenta, é possível perceber o porquê de muitos temas serem recorrentes na obra da autora.

— Ela usava bastante a questão das gêmeas trocando de lugar porque na infância fazia essa troca com as amigas, por exemplo. A mudança para novas casas também aparece bastante, e isso é porque ela vivia comprando e decorando casas — explica.

Uma das histórias em que a mudança para uma nova residência desencadeia uma situação de mistério é Um Crime Adormecido, ou o último caso de Miss Marple – justamente o preferido de Maria Nair entre os policiais da inglesa.

Ponto de partida

Depois de ser apresentada às obras que traziam como protagonistas Poirot, Miss Marple e Tommy e Tuppence, entre outros personagens, Maria Nair tornou-se aficionada por romances policiais, passando a ler também outros autores do gênero, como Arthur Conan Doyle, Georges Simenon e Patrícia Cornwell. Mas ela não deixa de revisitar seus livros preferidos:

— Cada vez que eu leio, sempre tem novidade, depende o que se procura.

Além disso, diz, essas histórias dão margem a outras leituras.

— Os livros não se fecham neles mesmos, mas nos fazem procurar outras coisas.

Como exemplo, ela cita que chegou a pesquisar a receita do pudim inglês citado no livro O Natal de Poirot, da mesma forma que pesquisa os locais em que se passam as tramas.

— E é muito difícil encontrar um furo nelas — acrescenta, lembrando mais uma vez a preocupação de Agatha Christie com os detalhes.

Com a experiência de quem atua há duas décadas na biblioteca, ela garante: embora tenham quase um século de vida, esses livros seguem sendo muito procurados. Quem são os leitores? Gente de todas as idades, mas, principalmente, da geração mais nova.

— É uma espécie de iniciação à leitura — avalia.

Saiba mais

:: Diversas editoras brasileiras já publicaram os livros de Agatha Christie; assim, é comum você encontrar o mesmo título em várias versões, com capas diferentes
:: O envenenamento é o método mais usado pelos assassinos nos livros da autora
:: Alguns temas são recorrentes nas obras, como os crimes em trens e navios (por exemplo, O Mistério do Trem Azul e Assassinato no Expresso do Oriente, ambos ambientados em trens)
:: A escritora também usa por várias vezes poemas infantis como pistas, ponto de partida para o enredo ou até mesmo para dar título a seus livros; é o caso, por exemplo, de Os Cinco Porquinhos e O Caso dos Dez Negrinhos – um de seus livros mais famosos
:: Quatro títulos da autora estão saindo em versão graphic novel, pela editora L&PM: um volume reúne Assassinato no Expresso do Oriente e Morte no Nilo, e o outro, Morte na Mesopotâmia e O Caso dos Dez Negrinhos
:: No Orkut, existem 162 comunidades dedicadas a Agatha Christie, sendo que a maior delas, Agatha Christie Brasil, reúne mais de 35 mil membros

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