O livre conhecimento dos livros

Fernanda Ezabella

LÁ FORA, AS SIRENES tocam com estardalhaço. Dentro, os espectadores se perguntam se o barulho faz parte do evento. Afinal, aguardamos o início de “Fahrenheit 451“, um filme sobre bombeiros -não aqueles que apagam fogo, mas os que incendeiam livros.

Mas as sirenes são apenas uma coincidência que marca a entrada de Ray Bradbury, o paladino das bibliotecas agonizantes e autor do livro homônimo no qual François Truffaut baseou seu longa-metragem de 1966.

Bradbury entra na sala e atravessa o corredor ignorando aplausos e flashes, o olhar petrificado por trás dos óculos de lentes grossas, enquanto desliza numa cadeira de rodas até o palco.

O autor de “O Homem Ilustrado” e “As Crônicas Marcianas” era o convidado da noite, na sede do Sindicato dos Roteiristas, em Los Angeles, no mês passado.

O escritor completou 90 anos em 22 de agosto e a prefeitura resolveu homenageá-lo criando oficialmente a Semana Ray Bradbury, com uma programação de eventos, peças de teatro e tardes de autógrafos.

Para falar com o público antes da exibição de “Fahrenheit 451“, Bradbury precisou que segurassem o microfone para ele. Na cadeira de rodas desde que sofreu um infarto, há mais de dez anos, o autor é uma figura frágil, mas não lhe faltam palavras afiadas e bom humor.

“Mel Gibson está muito ocupado com sua garota russa”, disse Bradbury, referindo-se às polêmicas do ator com sua ex-mulher. Há mais de uma década, Gibson comprou os direitos de produzir o remake de “Fahrenheit 451“. O contrato vence em 2011 e não há sinais de que o filme saia até lá.

Bradbury segue escrevendo vigorosamente. “Acordo todo dia e explodo”, conta, e dá risada: “Vomito pela manhã e limpo pela tarde”. Ele diz que, de sua casa em L.A., costuma ditar histórias pelo telefone para a filha, que mora no Arizona. Até o final do ano, lança o livro de contos “Juggernaut“.

Durante o evento, o escritor reafirma sua paixão pelas bibliotecas. Foi numa sala de estudos de uma delas, a Powell Library da Universidade da Califórnia, que escreveu “Fahrenheit 451“, há quase 60 anos, com uma máquina de escrever alugada na biblioteca.

O autor lembra que, sem dinheiro para fazer faculdade na época da Grande Depressão, impôs-se a disciplina de frequentar bibliotecas pelo menos três vezes por semana, durante dez anos.

Nos últimos anos, Bradbury visitou cerca de 200 bibliotecas californianas, em campanhas de arrecadação para evitar o fechamento de muitas delas, ameaçadas pelos drásticos cortes orçamentários do Estado.

“Bibliotecas são mais importantes do que universidades. Bibliotecas são livres. E o conhecimento deve ser livre.”

Hoje (19/9), o autor dará autógrafos numa convenção de HQs em L.A. Mais de 20 obras suas foram transpostas para o universo dos quadrinhos na última década.

NOVO MUSEU
Enquanto as bibliotecas penam para manter suas atividades, um movimento oposto acontece nas artes plásticas na cidade.

O bilionário Eli Broad, o maior filantropo de Los Angeles, anunciou no final de agosto o que os mercados imobiliário e artístico vinham especulando havia meses. Ele decidiu construir seu próprio museu, Broad Collection, no centro da cidade, num prédio de US$ 100 milhões para acomodar suas mais de 2.000 obras de arte contemporânea.

Fonte: Folha de S. Paulo – Ilustríssima

Imagem: Internet

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments