Autores reescrevem obras-primas da literatura e colocam seus personagens às voltas com vampiros, bruxas e alienígenas

Natália Rangel – Isto É

COLAGEM POP – Fotomontagens exibem Lucélia Santos na novela “Escrava Isaura”, ameaçada por morto-vivo,e Machado de Assis com disco voador (abaixo)

Bruxas, alienígenas, seres mutantes, discos voadores e vampiros povoam a recém-lançada série de livros intitulada “Clássicos Fantásticos” (Lua de Papel), uma bem-humorada releitura de obras criadas por consagrados autores brasileiros, como Machado de Assis, Bernardo Guimarães e José de Alencar, permeando os enredos originais com elementos pop e histórias surreais. Bentinho, por exemplo, um dos protagonistas de “Dom Casmurro”, terá em seu ciúme doentio por Capitu o menor de seus problemas, já que se verá envolvido num duelo com forças androides intergalácticas em “Dom Casmurro e os Discos Voadores”, escrito por Lúcio Manfredi. A dramática história da Escrava Isaura (imortalizada na interpretação da atriz Lucélia Santos) se transforma num thriller de terror em que o escravocrata Leôncio é um morto-vivo às voltas com a perda de seus caninos em “A Escrava Isaura e o Vampiro”, de Jovane Nunes. O médico Simão Bacamarte, de “O Alienista”, terá dessa vez de identificar entre os moradores de Itaguaí os cidadãos que foram afetados por uma misteriosa mutação biológica em “O Alienista Caçador de Mutantes”, enredo contemporâneo e tecnológico recriado por Natalia Klein, que descreve o monstro no trecho: “De lá, constam nas crônicas, saíra um ser de pele viscosa e amarronzada, de olhos vermelhos como o sangue e três protuberâncias na cabeça, assemelhando-se a chifres. A criatura foi vista por três moçoilas itaguaienses.”

Essa tendência literária conhecida como mashup (mistura de conteúdos) já havia produzido nos EUA dois títulos parodiando a autora inglesa Jane Austen e foram lançados recentemente no Brasil: “Orgulho e Preconceito e Zumbis” e “Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos” (Intrínseca), ambos versões de terror dos clássicos de autoria do americano Seth Grahame-Smith. Eles ficaram entre os livros mais vendidos do “The New York Times” no ano passado. O novo gênero existe há uma década na internet, onde personagens são mixados em histórias narradas em blogs e HQs virtuais. A rigor, foi a popularidade desse formato que provocou sua migração da rede para as editoras. A coleção pretende apresentar tal literatura numa roupagem mais contemporânea e atraente aos leitores apostando que o interesse leve o público à obra original. Nem o escritor russo Leon ­Tolstoi escapou dessa onda revisionista de obras-primas: a heroína Anna Karenina encarna um androide em publicação alemã. No Brasil, o romance “Senhora”, de José de Alencar, foi adaptado ao novo estilo pela escritora Angélica Lopes, que permeou a trama com magia e bruxaria incluindo na história a dupla de feiticeiras Blair. Machado ganhou ainda uma outra paródia: o livro “Memórias Desmortas de Brás Cubas” (Editora Tarja), de Pedro Vieira, que pretende ser uma continuação das memórias póstumas do herói machadiano. Nele, a famosa dedicatória que abre o romance original (“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas”) é transformada, com graça, em: “A todos os jovens alunos que foram forçados a ler minhas primeiras memórias póstumas, dedico estas memórias como forma de retribuição”.



Leia trecho do primeiro capítulo de “Dom Casmurro e os Discos Voadores”, de Lúcio Manfredi

Warning – aviso
Esta é uma obra de ficção baseada na obra original escrita por Machado de Assis e publicada em 1899.
Toda semelhança é proposital, e as diferenças também. Aqui você encontra uma nova versão do clássico, com todos os elementos do imaginário que povoam nossa literatura.

A denúncia

Estava entrando na sala de visitas quando ouvi alguém mencionar o meu nome e me escondi atrás da porta. A casa era a da Rua de Matacavalos, o mês de novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas não sou eu que vou trocar as datas só para agradar às pessoas que não gostam de histórias antigas: era 1857.

Eu estava então com quatorze anos.

— D. Glória, a senhora ainda tem a intenção de mandar Bentinho para o seminário?

Reconheci a voz como de José Dias, o agregado da casa.

Era impossível não reconhecer aquela voz fina, metálica, que chegava aos nossos ouvidos como se estivesse saindo por um tubo. Na época, eu ainda não conhecia os gramofones e, por isso, a comparação não me ocorreu. Mas, muitos anos depois, na primeira vez que ouvi o registro de uma fala gravada nos cilindros de cera, logo pensei em José Dias. A voz dele possuía aquela mesma qualidade mecânica, estranha, como se ele tivesse engolido um gramofone e o aparelho ficasse entalado na garganta.

Não era a única coisa mecânica em José Dias. Seus gestos eram todos milimétricos, precisos, como se os movimentos fossem medidos com régua e compasso. E o jeito de andar… Ah, o jeito de José Dias andar! Lá pelos meus três ou quatro anos de idade, um relojoeiro amigo do meu pai me deu de presente um boneco de mola que imitava um soldadinho. Eu adorava quando o meu pai dava corda no boneco e o soldadinho saía marchando pelo chão, com passos duros, cadenciados: um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato… Pois bem, José Dias andava de um modo tão parecido com aquele soldadinho que, às vezes, eu tinha a impressão de que ele também não passava de um boneco de mola movido a corda, só que em tamanho natural.

Naquela tarde de novembro de 1857, a única coisa que me interessava era descobrir porque aquele boneco de mola gigante estava perguntando se a minha mãe ainda pretendia fazer de mim um padre. Era um sonho que ela acalentava desde antes de eu nascer. Mais do que um sonho, uma promessa.

Eu tinha certeza de que, se entrasse na sala, os dois mudariam imediatamente de assunto. Foi por isso que, mesmo sabendo que era feio, eu me escondi e fiquei com o ouvido colado na porta, aguardando a resposta de mamãe. Que, por sinal, não se fez esperar.

— Mas que pergunta sem pé nem cabeça é essa, José Dias?

Suspirei de alívio. Talvez ela tivesse mudado de ideia.

Antes, a perspectiva de ir para o seminário e virar padre não me preocupava. Até gostava. Mas ultimamente, não sei por que, vinha começando a encará-la com outros olhos. Infelizmente, porém, se eu estava reavaliando minhas posições a respeito, minha mãe logo deixou claro que continuava firme nas dela:

— Você sabe muito bem que Bentinho está destinado a ser padre desde antes de nascer! Engoli em seco, tão alto que não sei como não me ouviram da sala. Em vez disso, o que se fez ouvir de novo foram os grasnidos de José Dias:

— Neste caso, acho que é melhor a senhora se apressar…

E, depois de uma pausa, a voz desconfiada da minha mãe:

— Você está sabendo de alguma coisa que eu não sei?

— Saber, saber com certeza, eu não sei…

Uma nova voz, dessa vez a do tio Cosme:

— Desde quando esse daí sabe de alguma coisa?

— Fica quieto, homem, deixe o José Dias falar! — essa era a prima Justina, que na certa já estava sentindo o cheiro de fofoca no ar.

O aparte de tio Cosme deve ter deixado José Dias inibido, pois se seguiu um longo silêncio, cortado pela minha mãe:

— Se tem algo a dizer, diga logo de uma vez!

Um pigarro, tão artificial que parecia uma lixa de metal raspando na madeira, e então José Dias falou, num tom de quem acha que está soltando uma bomba no meio da sala:

— É que, eu não sei se a senhora reparou, mas Bentinho vive enfurnado na casa do Tartaruga…

Tartaruga era como ele chamava o nosso vizinho, o Pádua.

Por motivos que ele nunca se deu ao trabalho de esclarecer, José Dias não ia com as fuças do Pádua. Uma dessas antipatias gratuitas que às vezes brotam entre as pessoas e que são o oposto exato do amor à primeira vista.

— Natural! — retrucou o tio Cosme. — Bentinho é muito amigo da filha do Pádua.

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