VOCÊ JÁ leu ou viu a peça “Macbeth“, de Shakespeare? Você lê clássicos assim não apenas pelo deleite estético (gosto de ler), mas pra saber quem você é.

Em épocas de conversa fiada sobre “nativos digitais”, onde muita gente fica “fazendo vento” falando de como os jovens “evoluíram” porque olham pra telas de computador e falam amenidades no celular o tempo todo, eu, como cético que sou, prefiro fazer os jovens lerem Shakespeare.

Eu sei que tem uma turminha por ai que diz que não se pode comparar Shakespeare com, digamos, “poemas neandertais”. Mas, eu, que não respeito a “nova censura”, comparo e digo: Shakespeare é melhor.

Outra coisa: se você é um frequentador de jantares inteligentes, dou uma dica. Nunca fale mal de Shakespeare, ou qualquer outro clássico, porque se tiver alguém ali que não seja “fake” vai saber que você é um bobo. Você passa, Shakespeare fica. Mas, vamos ao que interessa.

Na peça, Macbeth, um cavaleiro medieval, decide matar seu rei porque quer tomar seu lugar e acaba desgraçado e morto. Há aí, entre tantas outras coisas, três questões que valem a pena se você quiser saber o que é um ser humano.

Para dizer isso, eu pedirei ajuda a outro gigante, G. K. Chesterton (século 20). Aliás, recomendo fortemente a leitura da recém-publicada coletânea de seus ensaios, “O Tempero da Vida e Outros Ensaios“, da editora Graphia. Nessa coletânea, Chesterton comenta no ensaio “Macbeths” o casal Macbeth da peça homônima de Shakespeare.

Uma primeira questão são as qualidades (ou “competências” -detesto essa palavra!) de Macbeth: como homem corajoso e inteligente que é se destaca dos outros em batalha. E por isso ganha títulos de nobreza. Mas Macbeth se perguntará: sou melhor do que os outros, por que não posso ser eu o rei?

Quem nunca se sentiu “injustiçado” pelo destino? Entra em cena sua ambição. Hoje em dia, nessa época brega em que vivemos, talvez Macbeth pudesse ser modelo de “liderança” em workshops de recursos humanos. Mas, Shakespeare não era brega.

Outra questão é sua relação com o sobrenatural: as feiticeiras o alertam para o destino de “sucesso” que o espera. As crenças religiosas sempre serviram para nos fazer crer que somos “acompanhados” por alguém. De novo, na época brega em que vivemos, talvez se diria que Macbeth acreditou que o universo conspiraria a seu favor.

Pobre idiota é aquele que não vê que o destino é sempre contra nós porque somos mortais.

Mas fica uma questão: qual a medida certa da ambição? Quantos de nós já moveram mundos para ao final se verem na condição de Macbeth no quinto ato: “A vida é um conto contado por um idiota, cheio de som e de fúria, significando nada”.

O que adianta ganhar o mundo se você perdeu sua alma? Alguns, cínicos, diriam: quem precisa de alma quando temos grana? Essa resposta merece um texto à parte…

Outra questão é o famoso poder da Lady Macbeth sobre o marido. Para muitos especialistas, ela teria sido a causa definitiva para seu marido decidir assassinar o rei Duncan da Escócia. A análise de Chesterton é interessante porque aponta um traço da relação mulher-homem típica da vida real.

Qual relação? Sabe-se que num dado momento Macbeth entra em crise e recua na certeza de cometer o assassinato. Sua esposa, então, o convence a continuar no projeto, “motivando-o” da forma correta. E qual é essa forma? Desafiando sua virilidade e coragem.

Aqui Shakespeare põe o dedo na ferida: o homem morre de medo de ser fraco diante da mulher. Chesterton defende Lady Macbeth da acusação comum de ser “pouco feminina” dizendo, com razão, que ela é sim muito feminina no modo de conduzir seu marido para o que ela quer: que ele tome o trono da Escócia como prova de sua coragem e virilidade. Mentiras bonitinhas à parte, nada mudou: ou o homem é “forte” ou não vale nada.

Quando você não souber mais onde parar em sua ambição, lembre de Macbeth. Quando você se sentir um miserável porque um simples olhar feminino lhe destrói, lembre de Macbeth. Quando você sentir que a vida é um “conto idiota”, lembre de Macbeth.
 
Fonte: Folha de S. Paulo

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