No dia em que mais de 130 milhões de eleitores vão às urnas, o jornalista que transformou a História do Brasil e de Portugal em best-seller diz que é falsa a ideia de que o seu país é um “gigante adormecido” que vai, a qualquer momento, “acordar e virar uma potência mundial”. Em 1822, o segundo livro de uma trilogia, Laurentino Gomes explica também as razões “completamente diferentes” por que portugueses e brasileiros se interessam por uma história comum.

Laurentino Gomes é um fenómeno, uma espécie de Paulo Coelho dos livros de História. O seu primeiro livro, 1808, sobre a fuga da corte portuguesa para o Brasil, vendeu 600 mil exemplares num país onde a média é de 1800 por título. “Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar um país que tinha tudo para não resultar”, assim começa 1822, o novo best-seller do jornalista que “chegou de fora sem pedir licença”. A primeira tiragem brasileira esgotou em apenas três dias: 100 mil exemplares vendidos. O título 1822 chega agora a Portugal, através da Porto Editora. O fim da trilogia, 1889, vai ser escrito no Porto. Em 1822, Laurentino Gomes revela, para brasileiros e portugueses, um D. Pedro “meteoro que cruzou os céus da História, um imperador, um rei, que amou muito, se vingou muito, perdoou muito”. Um rei que até depois de morto continua dividido entre os dois lados do Atlântico. “O seu coração está no Porto e os restos mortais no Ipiranga.”

Vendeu 100 mil livros no Brasil em três dias. A que atribui este sucesso?

É inegável que o sucesso do primeiro livro [1808, que conta e analisa a ida da família real portuguesa para o Brasil] puxa o segundo. Mas há uma explicação mais profunda. Apesar desta aparente calmaria no Brasil, de uma campanha eleitoral que não empolga ninguém, de candidatos que são aparentemente muito parecidos, o Brasil está a passar por um momento de reflexão muito profunda e que não está no horário eleitoral gratuito [tempo de antena dos partidos na TV], não está nos palanques, não está nos partidos políticos. Está na Internet, na imprensa, nas organizações não governamentais, nas escolas e nos livros.

Acho que as pessoas estão lendo sobre História do Brasil em busca de explicações para o país de hoje. A minha impressão é a de que, depois do fim do regime militar e da redemocratização, nós alimentámos algumas ilusões a respeito do Brasil. De que o mero exercício da democracia nos levaria ao primeiro mundo, de que era muito fácil resolver os problemas do Brasil. Esta falsa ideia de que o Brasil é um gigante adormecido que, em algum momento, vai acordar e virar uma potência mundial.

A gente achava que uma eleição directa, a eleição de um Presidente populista como o Collor [Fernando Collor de Mello, o primeiro Presidente eleito pelo voto directo depois do regime militar], uma constituinte, um pacote económico, medidas provisórias iam resolver tudo. E as pessoas estão meio assustadas com a dificuldade que é levar o país adiante. Assustadas com a persistência da corrupção, da desigualdade social, da violência, da criminalidade, da ineficiência dos serviços públicos. E aí surge a pergunta inevitável: por que nós somos assim? Por que é tão difícil construir o Brasil? Há um ambiente de frustração no ar…

Não é à toa que pela primeira vez o número de jovens abaixo de 18 anos inscritos para votar caiu. Há uma campanha pelo voto nulo entre os jovens. Então, eu acho que entra a História com uma função muito importante que é responder a este tipo de pergunta. Ou seja, por que nós somos assim?

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