Escritor suíço, que narra em livro a experiência de passar uma semana no aeroporto de Heathrow, afirma que a aviação revela os principais temas da modernidade

Richard Baker/Divulgação

O filósofo Alain de Botton no aeroporto de Heathrow

Marcos Flaminio Peres
E não é que os paulistanos que iam passar suas tardes em Congonhas, fascinados pelo subir e descer de aviões nos anos 60, tinham lá sua dose de razão?

“Os aeroportos são o centro imaginativo do mundo moderno. É lá que devemos ir para encontrar todos os temas da modernidade: globalização, velocidade, destruição ambiental, consumismo, crises familiares e perda da individualidade”, diz à Folha Alain de Botton para explicar por que escreveu “Uma Semana no Aeroporto”, que está saindo aqui.

Na verdade, a obra foi produzida por encomenda da administradora do aeroporto londrino de Heathrow.
Em meados deste ano, o autor suíço de língua inglesa passou uma semana trabalhando como escritor residente em uma mesa solitária no terminal cinco.

Trata-se de um prodígio do arquiteto inglês Richard Rogers inaugurado em 2008. De Botton tinha autorização para circular por todas as áreas e abordar quem quisesse -passageiros, autoridades da imigração, funcionários, áreas de embarque e desembarque e a cozinha.

“Essa semana passada lá foi a realização de um sonho, porque aeroportos se caracterizam justamente pelo excesso de medidas de segurança e por regulamentos pouco amistosos.”

DUAS SOGRAS
Mas que personagens povoaram seu “sonho”?

O bígamo.
“Um passageiro me explicou que estava visitando sua família em Londres, mas tinha uma outra em Los Angeles que não sabia da existência da primeira. Tinha cinco filhos e duas sogras.”

A humilhada.
“Havia também uma funcionária do check-in que, quando o passageiro a tratava de modo rude, informava a ele que o sistema o elevara de classe no voo. Após ver o sorriso de satisfação estampado no seu rosto, ela lhe dizia que a máquina desfizera a operação e o colocara de volta na classe inicial.”

MORTES NO FREE SHOP
O que mais o surpreendeu? “A frequência de mortes. Em Heathrow, ocorrem, em média, três por semana -muitas no Free Shop.”

“Aeroportos nos aproximam da possibilidade da morte. Isso nos liberta de inibições e hábitos cotidianos.”
Mas nosso escritor é um otimista incorrigível: “A perspectiva de um acidente aéreo pode fazer maravilhas por um casamento debilitado”.

UMA SEMANA NO AEROPORTO
AUTOR Alain de Botton
TRADUÇÃO Maria Luiza Jatobá
EDITORA Rocco
QUANTO R$ 33,50 (124 págs.)
AVALIAÇÃO bom

Autor retoma “arquitetura da felicidade” em aeroporto
De Botton defende que terminais são locais onde “é possível sonhar”

Escritor evita abordar problemas imigratórios e afirma ter tomado cuidado para obra não soar propagandística

Em “Como Proust Pode Mudar Sua Vida” (Rocco, 196 págs., R$ 31), De Botton já tentava mostrar como o autor de uma das obras de ficção mais complexas do século 20 (“Em Busca do Tempo Perdido“) ajuda a nos tornar pessoas melhores.

Em “A Arquitetura da Felicidade” (Rocco, 272 págs., R$ 42), ele enumerou castelos, palácios, jardins e edifícios para explicar que as construções podem inspirar um sentimento de bem-estar àqueles que as veem ou que nelas vivem.

Faltavam os aeroportos. Mas são de fato o “não lugar” definido pela filosofia pós-moderna?
“São um lugar “entre”. Para certos tipos de pessoas, que não se sentem “em casa” em parte alguma, podem ser muito reconfortantes”, afirma o autor.

Para De Botton, eles também representam uma arquitetura da felicidade: “Ainda se pode sonhar lá”.
E como descreveria a obra “high-tech” de Rogers, que levou 20 anos e 4,3 milhões de libras para entrar em funcionamento?

“É muito bonita, um exemplo de arquitetura ideal, como Brasília. O Brasil não é como as obras-primas de Oscar Niemeyer, mas suas estruturas prometem uma certa visão do país”, diz.

Existem aeroportos mais bonitos que esse? “O de Oslo, um dos únicos feitos quase todo de madeira. Cheira bem e nos dá uma sensação de natureza”, define.

IMIGRAÇÃO
Um ponto cego do livro é o setor de imigração, tratado em módicas quatro linhas.
Quando informado de que a mídia daqui sempre estampa casos de brasileiros interrogados por guardas hostis em salas apertadas e mal ventiladas de Heathrow pouco depois de desembarcarem, De Botton escapou pela tangente:

“Esse era um tema que eu levava em consideração, mas havia muita coisa a descrever…”, responde.
Mas não teme haver sido enredado em uma grande peça de publicidade?

“Tinha claro que, se o livro fosse visto como propaganda, seria algo desastroso”, diz. “No fim das contas, minha primeira responsabilidade é com os meus leitores -não com um aeroporto. Sou um escritor, não um cara do marketing.”

Impresso o livro, a administração do aeroporto de Heathrow adquiriu 50 mil exemplares da obra para distribuí-los entre seus passageiros.

RAIO-X ALAIN DE BOTTON

VIDA
Nasceu em Zurique (Suíça), em 1969. Atualmente vive em Londres

FORMAÇÃO
Graduou-se em história e filosofia pela Universidade de Cambridge

PRINCIPAIS OBRAS
Ensaios de Amor” (1993), “O Movimento Romântico” (1994), “Como Proust Pode Mudar Sua Vida” (1998), “A Arte de Viajar” (2003), “A Arquitetura da Felicidade” (2006)

INFLUÊNCIAS
De Botton cita como inspiração para o novo livro o filme “Alice nas Cidades” (1974, de Wim Wenders ) e o escritor Norman Mailer (1923-2007)

Fonte: Folha de S. Paulo

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