Uma visibilidade mais cristalina e realista – eis a expectativa do escritor Alan Pauls em relação à consequência que pode provocar a presença da Argentina na Feira de Frankfurt. Sobre isso, ele respondeu, por e-mail, as seguintes questões.

Qual o impacto da presença argentina na Feira de Frankfurt?

Algo de visibilidade, acredito. Seria interessante que, a partir dessa feira em Frankfurt, deixasse de se acreditar que todos os escritores argentinos são filhos de Borges e Cortázar. Já sobre os efeitos reais sobre a circulação da literatura, sou mais cético. Com esse formato de “feira”, acredito que a de Frankfurt funciona como uma sorte de paroxismo publicitário: durante cinco dias se concentra todo o interesse, atenção e curiosidade que se esperava distribuído ao longo do ano, com mais sutileza, rigor e paciência. A feira é uma overdose de antibiótico. A circulação da literatura estrangeira opera com uma lógica bem mais homeopática, acho.

As tentativas do governo Kirchner de tentar controlar a mídia são preocupantes?

É preocupante qualquer política oficial que concentre seu imaginário de conflito em apenas um adversário, um único rival, e reduza a complexidade do conflito político à lógica especulativa de guerra. Dito isso, o conflito entre governo e certos grupos midiáticos tem servido, entre outras coisas, para incentivar um debate vital, há muito esperado na Argentina e que não acontecia ou por pressão dos meios ou por aliança entre os meios e o poder vigente: o papel da indústria midiática na produção de verossimilhanças políticas. É incrível que um país como a Argentina, onde absolutamente todas as instituições estiveram ou estão sob suspeita, os meios despontem como sentinelas da verdade e garantidores da decência. Como se eles mesmos não fossem parte decisiva dos processos de corrupção, de clientelismo, de aliança mafiosa, de lobby etc., sobre as quais supõem-se que eles informam.

A literatura argentina foi provavelmente a mais vigorosa da América Latina do século 20?

Não gosto de rankings. Sei que é uma literatura vital, plural, dinâmica, que se renova com fluidez, que tem a vantagem de ter ficado mais ou menos imune ao boom do realismo mágico dos anos 1960 e 70 (fenômeno que colocou certa literatura latino-americana no mercado internacional mas que também a sufocou, disciplinou e a formatou de maneira brutal) e que se mantém fiel a uma tradição crítica.

A atual geração de escritores revela-se forte para não ficar à sombra de figuras como Borges?

Ele foi mesmo um peso para os autores nascidos até os anos 1940, sobretudo por razões políticas. Era difícil relacionar-se com um escritor que havia pensado absolutamente toda a literatura e cuja vida pública era marcada pelo conservadorismo político mais recalcitrante. Nesse contexto, o parricídio parecia uma solução. Os escritores da minha geração – e os que nos seguem – não temos esse problema. Logo nos demos conta de que escrever como Borges era impossível. Mas podíamos ler como ele. Borges nos ensinou a ler, a repaginar a literatura com liberdade, humor, impertinência.

Você teme o futuro digital?

A “morte do livro” não é um horizonte, nem uma ameaça, ou uma fatalidade: é um gênero como qualquer outro. Ou melhor, um subgênero do Apocalipse Cultural, que deveria ocupar uma coluna fixa em todos os grandes jornais do mundo. Há livros sobre a morte do livro como houve filmes sobre a morte do cinema e quadros fantásticos sobre a morte da pintura. Minha opinião é que os mesmos jornalistas que hoje enchem páginas de cultura sobre a morte do livro deveriam ganhar tempo e preparar, eles mesmos, os suplementos que exaltam seu renascimento. O livro não morre: é a forma zumbi por excelência.

fonte: Estadão

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