“Estórias são como poemas. Não são para ser entendidas. O que é entendido nunca é reetido. O entendimento esgota o sentido da palavra. Deixa-a vazia com nada mais a ser dito. Quando uma palavra é entendida, segue-se um silêncio morto.
As estórias são como uma sonata, um abraço de amor, um poema, um pôr do sol: queremos a repetição porque seu sabor é sempre novo. Parecem-se com gaiolas. São construídas com grades de palavras. Mas estão vazias. Nelas mora o Vazio, que não se enche nunca. A roda só pode rodar porque seu coração é um vazio. O vaso só pode conter a água por causa do vazio que ele contém.
O pensamento exige o Vazio, pois é nele que o inesperado aparece. Algo que era sabido por aqueles que construíram as catedrais góticas: as paredes, os relevos, as esculturas, os vitrais – todos eles construídos para trazer à existência um espaço vazio. “Pensar”, diz Octavio Paz, “é produzir o vazio para que o ser aflore.”
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba (Planeta do Brasil)

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